Disponível nas plataformas, Zico, o Samurai de Quintino
Documentário resgata a essência do maior ídolo do Flamengo e um dos maiores das Américas
O documentário acerta ao começar pelo começo: as ruas de Quintino, os campinhos de terra batida e o garoto franzino que driblava a gravidade. O grande mérito está no uso das imagens originais dos anos 1960 e 70.
São registros raros, em 16mm, com granulação e cor desbotada que emprestam poesia ao cotidiano. Ver Arthur Antunes Coimbra adolescente, ainda sem a faixa de capitão, mas já com o olhar obstinado, é testemunhar a construção de um mito em tempo real.
O tom histórico não vem só da narração: ele pulsa nos gestos simples — a mãe Dona Matilde no portão, o pai Seu Antunes na arquibancada do CFZ, o primeiro gol no Maracanã capturado por câmeras amadoras.
Na segunda metade, o filme cruza o Oceano Pacífico e revela um Zico desconhecido do grande público. No Japão dos anos 1990, o Galinho não foi apenas jogador do Kashima Antlers: tornou-se arquiteto da J-League.
O documentário expõe fatos inéditos, como as aulas de tática que Zico dava de graça para treinadores japoneses, e o episódio em que recusou cidadania honorária para não perder o vínculo com or Brasil, gesto que comoveu a nação dos "samurais".
A câmera volta às imagens de arquivo: Zico ensinando crianças em Ibaraki, reverenciado em templos, carregado por torcedores que o chamavam de Kami-sama, "Deus do Futebol".
Entre o menino de Quintino e o herói japonês, o filme costura uma narrativa épica sem perder a delicadeza. É histórico porque documenta, é poético porque sente.
Ao final, entende-se: Zico não jogou futebol. Escreveu, com a bola, uma história de disciplina, lealdade e arte, digna dos guerreiros míticos que o adotaram.