Sete vezes Anna Karenina
Alex Medeiros
O russo Liev Tolstói avisou logo na primeira frase que as famílias felizes se parecem todas e que cada família infeliz o é à sua maneira. Esqueceu-se de avisar que as adaptações felizes também seriam todas iguais, e que as infelizes, ah, essas seriam sete. Ao menos no cinema.
Dostoievski, que não era homem de elogios fáceis, chamou o romance de Tolstói de uma obra de arte sem defeito. Nabokov mandava os alunos em Cornell olharem os detalhes: a luz, as mãos, o trem. E Faulkner elencou os três maiores romances: “Anna Karenina, Anna Karenina e Anna Karenina”.
Quando o cinema nasceu, o autor, que o filósofo inglês Isaiah Berlin considerava uma raposa já tinha a minha idade agora, 67 anos. Então a sétima arte iniciou uma caça ao bicho que se estenderia por sete vezes nas telas.
Em 1927, o filme mudo nos mostra Greta Garbo e John Gilbert se olhando sem som, e o estúdio, desconfiado do público, rodou dois finais para um mesmo roteiro. Num, Anna morre, noutro, a vida lhe concede uma segunda chance.
Em 1935, Garbo volta, agora falando, e o rosto dela passa a ser a Rússia que Hollywood imaginava, com neve, melancolia e um chapéu. Fredric March empresta a Vronski a elegância de quem ainda não sabe que é coadjuvante.
Em 1948, Julien Duvivier entrega Anna a Vivien Leigh, que foi Scarlett em E o Vento Levou. A atriz caminha entre as duas como quem atravessa uma ponte caindo. Ralph Richardson é um Karenin de mármore britânico. Os críticos acharam o filme frio. Mas era a frieza do salão, de onde Anna sai para morrer.
Em 1967, enquanto os Beatles lançavam o Sgt. Peppers e eu colava suas figurinhas, a União Soviética filmava a própria Anna, em casa e sem tradução. A atriz Tatiana Samoilova, de Quando Voam as Cegonhas, a encarnou devolvendo Tolstói à pátria.
Em 1997, o cineasta Bernard Rose levou a câmera às ruas russas de verdade, pôs Tchaikovsky na trilha e entregou Anna à francesa Sophie Marceau, de olhos de Paris e alma de inverno. Sean Bean fez um Vronski que cavalga o amor como cavalga a guerra. É um filme que quer ser fiel à geografia, já que ao tempo ninguém mais consegue.
Em 2012, Joe Wright e Tom Stoppard fizeram o que Shakespeare sugeria. Transformaram o mundo em palco. Anna Karenina passou a ser encenada em teatro, entre cordas, cortinas e coxias, e a Rússia virou cenário de si mesma. O Oscar foi para o figurino; Anna perde a vida, mas o guarda-roupa ganha a estatueta.
Em 2017, o conde Vronski teve tanto destaque na trama que foi para o título do filme. Está velho, na guerra russo-japonesa, contando o que viveu. É o Dom Casmurro às avessas. Se Bentinho fosse russo e tivesse sobrevivido ao ciúme, deixaria que o amante falasse.
Sete versões, sete plataformas de Moscou, e em nenhuma delas ninguém chega. Tolstói pôs na epígrafe o aviso bíblico de que a vingança pertence a Deus, e talvez por isso o cinema, que adora julgar, nunca saiba o que fazer com Anna Karenina.
Condená-la é pouco, absolvê-la é covardia. Resta filmá-la de novo, e de novo, até que o trem, cansado de esperar, resolva parar. Há duas semanas, eu parei para ver os sete filmes no UniTV e comprei o clássico romance para fazê-lo um presente muito especial.