Um ataque francês incomoda a China
O craque MBappé balança as muralhas chinesas e a estampa de Mao
Certos acontecimentos ajudam a entender o século XXI melhor do que qualquer tratado de ciência política. Um deles ocorreu nos últimos dias, quando o jogador Mbappé, um dos atletas mais famosos do planeta, conseguiu provocar uma crise diplomática informal não por uma declaração sobre Taiwan, não por uma crítica ao Partido Comunista Chinês, não por um manifesto ideológico, mas por citar um meme.
Sim, um meme. Num mundo em que guerras acontecem em tempo real nas redes sociais, em que líderes trocam acusações diante de plateias globais e em que a inteligência artificial já produz imagens mais convincentes do que muitas fotografias, o grande escândalo da vez foi a lembrança de uma montagem humorística envolvendo Mao Tsé-Tung. O craque francês não lembrou o nome, então disse que achava ser um ditador chinês. Bingo. Foi o suficiente para fazer tremer as muralhas da China e empresas do país retirarem a imagem do atleta de jogos eletrônicos, suspenderem ações promocionais e demonstrarem indignação.
Aparentemente, a estabilidade política de uma potência nuclear corria perigo porque um jogador de futebol recordou uma piada que compartilhava com amigos. MBappé, vejam só, chamou um ditador de ditador. É impossível não admirar a fragilidade monumental desse tipo de poder e de fricote. Trata-se de um regime que sobreviveu a revoluções, crises econômicas, disputas geopolíticas, transformações sociais gigantescas e à própria morte de seus líderes históricos. Mas que continua revelando uma sensibilidade extraordinária quando alguém menciona certas figuras do passado sem a reverência exigida pelo protocolo ideológico.
Mao continua sendo um personagem controverso da história moderna. Para admiradores do regime, um herói revolucionário. Para democratas um tirano comunista. E para muitos historiadores, uma figura associada a algumas das maiores tragédias políticas do século XX. O curioso é que essa segunda interpretação não nasceu em alguma sala secreta de Wall Street nem foi criada por um comitê da OTAN. Ela surgiu de décadas de pesquisas, depoimentos, arquivos, documentos e estudos produzidos por acadêmicos de diferentes países e correntes de pensamento.
Mas ditaduras possuem uma característica quase religiosa. Elas não toleram apenas a discordância. Elas exigem fé. E a fé política tem um detalhe inconveniente: quando os fatos entram em conflito com o dogma, o problema nunca é o dogma. São os fatos. Por isso, é comum encontrar defensores de regimes autoritários que tratam acontecimentos históricos desconfortáveis como se fossem invenções produzidas por alguma conspiração internacional permanente. A fome nunca aconteceu. As perseguições são exageradas. Os expurgos foram mal compreendidos.
As vítimas são uma construção narrativa. Os críticos seriam agentes estrangeiros. E os historiadores inconvenientes apenas instrumentos do capitalismo. A tese é impressionante. Imagine a confiança intelectual necessária para acreditar que milhões de páginas de documentos, milhares de pesquisadores e incontáveis testemunhos foram mobilizados ao longo de décadas apenas para prejudicar a reputação de governos que juram não ter nada a esconder.
Se Freud estivesse vivo, talvez chamasse isso de negação. Orwell provavelmente chamaria de rotina. O autor de A Revolução dos Bichos compreendeu cedo que o poder autoritário não se contenta em controlar o presente. Ele sente uma necessidade quase biológica de administrar a memória. O passado precisa ser disciplinado. As recordações precisam ter autorização. As conclusões precisam ser homologadas. O objetivo não é apenas governar pessoas. É governar a realidade. E é justamente por isso que os memes se tornam irritantes. A piada possui uma qualidade insuportável para qualquer projeto totalitário: ela ignora a solenidade oficial.
Toda ditadura deseja ser eterna, majestosa e incontestável. O humor responde com uma gargalhada. Toda propaganda quer transformar líderes em figuras sagradas. O humor devolve esses líderes à condição de mortais. Toda ideologia busca impor respeito automático. O humor pergunta o motivo. Foi exatamente isso que aconteceu no caso Mbappé. Sem fazer discurso político. Sem escrever manifesto. Sem liderar campanha internacional. O atacante conseguiu produzir um desconforto monumental simplesmente porque recordou a existência de um meme envolvendo um homem cujo legado continua despertando discussões décadas após sua morte.
Talvez esteja aí a verdadeira lição da história. Regimes realmente confiantes não temem piadas. Governos seguros de sua legitimidade não entram em pânico diante de imagens humorísticas. Apenas sistemas inseguros precisam transformar o humor em ameaça. No fim, os videogames perderam um astro. Mas o episódio entregou ao mundo uma demonstração involuntária de como funciona a lógica autoritária. Nela, um meme pode ser mais perigoso do que uma mentira. Porque a mentira pode ser censurada. Já a lembrança daquilo que realmente aconteceu continua sendo um adversário extremamente difícil de derrotar.