Um país repartido
Alex Medeiros
Desde 2018 o Brasil aprendeu a viver em dois países que ocupam o mesmo território e se encontram nas redes e nas ruas, mas se separam nas urnas. Domingo a eleição confirmou o muro entre duas Berlins tropicais. Lula reeleito entre festa e suspeitas para um quarto governo que terá um Congresso com a direita (especialmente o PL) em maioria, dezenas de estados sob governos de oposição e um Sul onde lideranças já falam em plebiscito para “decidir se ainda quer fazer parte desta Federação”.
Enquanto isso, nas redes, o Sudeste e o Nordeste continuam o duelo de identidades. Um estudo após o primeiro turno contabilizou milhões de menções hostis ao voto nordestino, misturando política com diferenças regionais. Confrontos com feridos, quando acontecem, são apenas a versão mais visível de algo que já correu solto nos grupos de WhatsApp e nos comentários.
Aí surgem os políticos do “agora vamos nos unir”. Os mesmos que, na campanha, trataram o adversário como criminoso, miliciano ou ameaça existencial, e agora pedem pacificação com a voz de quem acaba de descobrir sociologia de boteco.
Bradam nas entrevistas “somos um só povo”, “as diferenças são apenas de opinião”, “o Brasil precisa de diálogo”. Como se a divisão fosse um mal-entendido de bar, e não o resultado de 40 anos de divisão social da nação.
Na dicotomia de heróis e vilões, petistas e bolsonaristas não estão divididos por causa da polarização. Eles estão divididos porque passaram anos sendo convencidos, com razão (na visão de cada um), de que o outro lado representa o fim do país que eles reconhecem.
Um lado vê ameaça à democracia e aos direitos; o outro vê ameaça à ordem, à moral e ao combate à corrupção. Nenhum dos dois vai desligar isso porque um governador ou um líder de partido resolveu que “agora é hora de pacificar”.
O próximo governo terá de negociar com um Congresso hostil e governadores adversários. A “união nacional” que alguns prometem será, no melhor dos casos, um armistício tático. No pior, apenas mais um discurso que as redes vão transformar em piada pronta.
Pacificar um país assim até não é difícil. É, para quem conhece a força real das divergências, simplesmente impossível enquanto as lideranças continuarem achando que um abraço de campanha e uma frase de efeito resolvem o que oito anos de ódio organizado deixaram de pé.