No país dos folhetins
Alex Medeiros
Na sexta-feira, escrevi aqui que os erros das pesquisas eleitorais já são mais numerosos que as lojas da Drogasil. Encerrada a eleição, começam as explicações: foi a margem de erro, o eleitor envergonhado, o vento contra, a umidade do ar. Só falta culpar Mercúrio retrógrado. Concluí dizendo que, no Brasil, até os erros eleitorais têm direito à reeleição.
Pois bem. Veio mais uma eleição e os institutos conseguiram a proeza de errar até o endereço do fenômeno. Lula cresceu mais de dez milhões de votos no segundo turno, numa explosão eleitoral que nem os astrólogos do Planalto previram. De repente, uma multidão que passara o primeiro turno em casa acordou no domingo com uma irresistível vocação cívica.
As pesquisas também não viram a transferência de votos de Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. Muito menos perceberam que uma parcela dos eleitores de Flávio Bolsonaro foi acometida por uma súbita conversão vermelha. Foi um Pentecostes eleitoral: o sujeito saiu de casa vestido de amarelo e voltou para a história trajando vermelho.
Nos quase onze milhões de votos adicionais de Lula, havia até bolsonaristas arrependidos, convertidos depois das cinco da tarde, quando o eleitorado já começava a guardar a bandeira e a urna ensaiava o repouso. Mas eis que o advogado de Lula e ministro do Supremo, Cristiano Zanin, chamou o VAR e conseguiu esticar o jogo numa prorrogação. No Brasil, até a democracia ganha acréscimos quando o placar ameaça contrariar o roteiro.
Outra façanha invisível aos institutos foi a mobilização da esquerda, que repetiu o fenômeno francês de 2024. Lá, a direita venceu o primeiro turno, mas a esquerda se articulou para barrar sua ascensão no segundo turno. Aqui, a versão cabocla foi ainda mais espetacular: o eleitor progressista, conhecido por ler dois livros entre o café e o jantar, largou Proust, pegou o ônibus e correu para salvar a democracia. Paris é uma festa lá e aqui.
Só faltou a imprensa explicar como tanta consciência política coube num domingo tão chuvoso. O eleitorado brasileiro, que costuma confundir programa de governo com bula de remédio, virou uma legião de estrategistas franceses. E até muitos bolsonaristas, só pode, parece ter trocado de lado na undécima hora, como quem muda de camisa no intervalo. As pesquisas? Não viram nada. Os analistas? Também não. A imprensa? Enalteceu a virada épica.
Os comentaristas, que na véspera distribuíam certezas como panfletos, descobriram depois que o resultado era inevitável. É a velha ciência retrospectiva: antes da eleição, ninguém sabe; depois, todo mundo explica. E os institutos de pesquisa, quer erraram o futuro e agora vão passar os próximos meses pesquisando por que erraram. Até a próxima eleição, quando errarão de novo, com metodologia atualizada e a mesma cara de paisagem.
No país varonil, o eleitor sempre surpreende, o instituto nunca aprende e a democracia segue em cartaz. Só não sabemos se estamos diante de uma revolução popular ou de mais um episódio de Além da Imaginação. Em qualquer caso, a revolução do socialismo eletrônico do PT avança para mais uma década de poder (já são 40 anos de inércia) e as pesquisas já podem encomendar a faixa; pois é candidata favorita ao próximo erro eleitoral.