Pesquisas vs Urnas
Os erros das pesquisas de opinião se repetem a cada eleição
Quando uma eleição termina, sempre vêm as explicações sobre os erros costumeiros das pesquisas: margem de erro, volatilidade do eleitorado, mudanças de última hora, dificuldades de captar tendências. Os institutos de pesquisa, que trocaram a ciência pelo comércio, apresentam suas justificativas, a imprensa publica análises sobre os desvios e a vida segue.
Mas só até começar a próxima campanha, quando as mesmas pesquisas voltam ao horário nobre, aos portais de notícias, às manchetes de jornais e às redes sociais como se fossem oráculos da democracia, profetas da vida republicana nacional.
Vejamos o Datafolha, um dos institutos mais famosos do país, que todo ano tropeça nas discrepâncias entre seus prognósticos e as urnas. Quando os resultados se afastam significativamente das projeções, seria natural exigir uma revisão dos métodos, uma avaliação pública dos erros e, sobretudo, mais cautela na divulgação dos números.
Mas não. Basta abrir um novo turno para que os percentuais reapareçam com ares de verdade científica, alimentando manchetes, estratégias de marketing e convicções populares. A ironia é que poucos profissionais recebem o privilégio de errar e conservar intacta a autoridade.
Imagine um meteorologista anunciar céu ensolarado durante uma semana de tempestades e, na segunda-feira seguinte, voltar ao rádio e à televisão com a mesma segurança. Ou então um comentarista de futebol apostar no placar errado e continuar escalado como analista de resultados.
Nas eleições, sempre se diz que pesquisa não é só um retrato estatístico, ela também interfere no ambiente que pretende retratar. Pode estimular o voto útil, desmobilizar militantes, atrair apoios e influenciar o financiamento das campanhas.
Por isso, quando seus números se distanciam das urnas, não basta invocar a margem de erro como desculpa para qualquer discrepância. É até justo reconhecer que pesquisas são fotografias de um momento, não profecias, e que resultados fora da margem não significam automaticamente fraude ou incompetência.
Mas a repetição de erros relevantes exige investigação, transparência e cobrança proporcional à influência que esses levantamentos exercem. A pergunta, portanto, não é por que uma pesquisa erra. É por que uma sequência de erros aparentemente não compromete a credibilidade de quem a produz.
Por que a imprensa transforma estimativas em manchetes categóricas? Por que marqueteiros tratam oscilações como mandamentos? E por que tantos eleitores confundem intenção de voto com destino eleitoral? Talvez a resposta esteja na necessidade coletiva de acreditar que o imprevisível pode ser domesticado por uma tabela colorida e duas casas decimais.
Alex Medeiros