Jornalismo Independente & Opinião
CRÔNICAS

Gloriosas e Laureadas

18/08/2026 - 18:58
Gloriosas e Laureadas

No final da tarde desta terça-feira, liguei para minha filha Marana para falar da

coincidência nas mortes das atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes. E liguei

porque sabia que ela estava, como eu, impressionada com o fato que sacudiu

a teledramaturgia nacional.

Eu, que fui formado culturalmente diante da TV nos anos áureos das

telenovelas em que figuras como Laura e Glória eram componentes diários das

famílias brasileiras, aproveitei para revelar o que de verdade havia ocorrido.

Na manhã da segunda-feira, durante o café da manhã, quando ninguém

suspeitava que o Cosmo também tem produção executiva, uma nave planou

silenciosamente sobre o bairro Sumaré, em São Paulo.

No mesmo instante, outra com o mesmo tamanho e formato, pousou num

terreno baldio da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. De cada uma delas

desceu uma figura brilhante, conduzindo nas mãos um envelope metálico.

As naves não faziam ruído de motor, mas de aplauso antigo, daqueles

gravados em plateia de teleteatro dos anos 1950, guardados em fita magnética

e agora reproduzidos por alto-falantes que ninguém sabe onde ficavam.

Laura Cardoso, 98 anos recém-completados e mais de sessenta de carreira

somados como quem soma capítulos de uma novela sem fim, sentiu a friagem

entrando pela janela e pensou que era só a idade cobrando seu ofício. Não era.

Abriu o envelope e reconheceu a caligrafia de Ivani Ribeiro, psicografanda às

pressas: "Querida Laura, precisamos de você nos tablados do infinito. Urgente.

Trata-se de uma peça em risco.". Seria Mulheres de Areia ou A Viagem?

A atriz, que já tinha interpretado presidiárias, matriarcas e beatas com a

mesma desenvoltura com que trocava de roupa entre um capítulo e outro, não

fez cerimônia. Vestiu o figurino de sempre, o da dignidade, e partiu.

Poucas horas depois, na outra cidade, ou talvez do outro lado do tempo, Glória

Menezes recebeu convite parecido, só que mais íntimo: “Amor, a Janete Clair

precisa muito de você aqui. Beijos, Tarcísio”. Viajar aos 91 anos é instigante.

E Glória, que sempre teve um estilo assim de entrada em cena pela porta

principal, ficou pronta em minutos. Aliás, ela esperava isso desde a viagem do

marido. Uma voz que lembrou Daniel Filho avisou que "Laura também vai".

Ainda impregnada do perfume de tantas mulheres fortes que vestiu (a jornalista

de Guerra dos Sexos, a milionária de Rainha da Sucata, a matriarca de A

Favorita, a presidiária de 2-5499 Ocupado), ela caminhou para sua nave.

Laura e Glória ouviram alguém avisá-las que a dramaturgia espiritual ainda é

uma arte não catalogada, mas praticada há séculos por quem morre em cena

ou continua atuando na velhice nos palcos de uma dimensão quântica.

A peça em risco era simples de explicar e impossível de resumir: um

espetáculo cósmico, apresentado eternamente em palcos feitos de matéria

escura e luz de camarim, onde todos que um dia fez o público chorar tem

direito a um bis infinito.

O problema era que faltavam duas atrizes para o quarto ato. Elas seriam

contratadas às pressas, e mesmos novatas do outro mundo, para sustentar o

silêncio antes da fala definitiva, aquele silêncio que só quem trabalhou décadas

sob os holofotes da TV sabe medir em segundos exatos.

Laura entrou em cena como quem retoma um papel interrompido em 1952, no

Tribunal do Coração, e nunca mais devolvido de fato. Trouxe a voz grave que

emprestara a tantas mães de novela, aquela autoridade que fazia qualquer

diretor pensar duas vezes antes de cortar sua fala.

Glória entrou como quem sempre soube que seu nome, Nilcedes Soares de

Magalhães, batizada assim numa Pelotas fria de 1934, era só o rascunho, e

Glória Menezes, o produto final, a mulher que se inventou para ocupar o centro

do palco e nele permanecer por setenta anos.

As duas se olharam nos bastidores cósmicos com o reconhecimento de quem

tinha contracenado antes em dramas que remetiam à nova realidade

dimensional. As duas estampas da dramaturgia nacional como repetindo as

novelas que fizeram juntas: Um Lugar ao Sol (1959), Há Sempre o Amanhã

(1960) e Senhora do Destino (2004).