Gloriosas e Laureadas
No final da tarde desta terça-feira, liguei para minha filha Marana para falar da
coincidência nas mortes das atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes. E liguei
porque sabia que ela estava, como eu, impressionada com o fato que sacudiu
a teledramaturgia nacional.
Eu, que fui formado culturalmente diante da TV nos anos áureos das
telenovelas em que figuras como Laura e Glória eram componentes diários das
famílias brasileiras, aproveitei para revelar o que de verdade havia ocorrido.
Na manhã da segunda-feira, durante o café da manhã, quando ninguém
suspeitava que o Cosmo também tem produção executiva, uma nave planou
silenciosamente sobre o bairro Sumaré, em São Paulo.
No mesmo instante, outra com o mesmo tamanho e formato, pousou num
terreno baldio da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. De cada uma delas
desceu uma figura brilhante, conduzindo nas mãos um envelope metálico.
As naves não faziam ruído de motor, mas de aplauso antigo, daqueles
gravados em plateia de teleteatro dos anos 1950, guardados em fita magnética
e agora reproduzidos por alto-falantes que ninguém sabe onde ficavam.
Laura Cardoso, 98 anos recém-completados e mais de sessenta de carreira
somados como quem soma capítulos de uma novela sem fim, sentiu a friagem
entrando pela janela e pensou que era só a idade cobrando seu ofício. Não era.
Abriu o envelope e reconheceu a caligrafia de Ivani Ribeiro, psicografanda às
pressas: "Querida Laura, precisamos de você nos tablados do infinito. Urgente.
Trata-se de uma peça em risco.". Seria Mulheres de Areia ou A Viagem?
A atriz, que já tinha interpretado presidiárias, matriarcas e beatas com a
mesma desenvoltura com que trocava de roupa entre um capítulo e outro, não
fez cerimônia. Vestiu o figurino de sempre, o da dignidade, e partiu.
Poucas horas depois, na outra cidade, ou talvez do outro lado do tempo, Glória
Menezes recebeu convite parecido, só que mais íntimo: “Amor, a Janete Clair
precisa muito de você aqui. Beijos, Tarcísio”. Viajar aos 91 anos é instigante.
E Glória, que sempre teve um estilo assim de entrada em cena pela porta
principal, ficou pronta em minutos. Aliás, ela esperava isso desde a viagem do
marido. Uma voz que lembrou Daniel Filho avisou que "Laura também vai".
Ainda impregnada do perfume de tantas mulheres fortes que vestiu (a jornalista
de Guerra dos Sexos, a milionária de Rainha da Sucata, a matriarca de A
Favorita, a presidiária de 2-5499 Ocupado), ela caminhou para sua nave.
Laura e Glória ouviram alguém avisá-las que a dramaturgia espiritual ainda é
uma arte não catalogada, mas praticada há séculos por quem morre em cena
ou continua atuando na velhice nos palcos de uma dimensão quântica.
A peça em risco era simples de explicar e impossível de resumir: um
espetáculo cósmico, apresentado eternamente em palcos feitos de matéria
escura e luz de camarim, onde todos que um dia fez o público chorar tem
direito a um bis infinito.
O problema era que faltavam duas atrizes para o quarto ato. Elas seriam
contratadas às pressas, e mesmos novatas do outro mundo, para sustentar o
silêncio antes da fala definitiva, aquele silêncio que só quem trabalhou décadas
sob os holofotes da TV sabe medir em segundos exatos.
Laura entrou em cena como quem retoma um papel interrompido em 1952, no
Tribunal do Coração, e nunca mais devolvido de fato. Trouxe a voz grave que
emprestara a tantas mães de novela, aquela autoridade que fazia qualquer
diretor pensar duas vezes antes de cortar sua fala.
Glória entrou como quem sempre soube que seu nome, Nilcedes Soares de
Magalhães, batizada assim numa Pelotas fria de 1934, era só o rascunho, e
Glória Menezes, o produto final, a mulher que se inventou para ocupar o centro
do palco e nele permanecer por setenta anos.
As duas se olharam nos bastidores cósmicos com o reconhecimento de quem
tinha contracenado antes em dramas que remetiam à nova realidade
dimensional. As duas estampas da dramaturgia nacional como repetindo as
novelas que fizeram juntas: Um Lugar ao Sol (1959), Há Sempre o Amanhã
(1960) e Senhora do Destino (2004).