De poderoso da Globo a bajulador de Vorcaro: quem é Frédéric Kachar, demitido após mensagens constrangedoras
Executivo passou 29 anos no grupo, comandou jornais, revistas e rádios e caiu após exposição de conversas que misturam negócios, comentários grotescos sobre mulheres e reverência ao dono do Banco Master
Por Marana Torrezani, da redação
Frédéric Kachar construiu uma carreira de quase três décadas no Grupo Globo e chegou ao comando de negócios que incluem alguns dos veículos mais influentes do país. Mas foram suas conversas com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que colocaram seu nome sob os holofotes — e encerraram sua trajetória na empresa. Demitido na quinta-feira (15), o executivo deixou o cargo após a divulgação de mensagens envolvendo interesses comerciais, cobertura jornalística e comentários desrespeitosos sobre mulheres. A Globo classificou a relação com o anunciante como inadequada.
Kachar era diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio. Sob sua gestão empresarial estavam O Globo, Extra e Valor Econômico, revistas como Vogue e Marie Claire e o Sistema Globo de Rádio, que inclui a CBN. Sua função era administrar essas operações, seus negócios e estratégias.
A carreira começou nas finanças. Formado em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com MBA em Finanças pelo Ibmec e formação executiva no Insead, trabalhou na Deloitte antes de entrar na Infoglobo, em 1997, como analista financeiro.
Em 2001, assumiu a direção financeira do Diário Popular, posteriormente chamado Diário de S. Paulo. No ano seguinte, foi para a Editora Globo, também como diretor financeiro. Tornou-se presidente da editora em 2008 e participou da criação da parceria Globo Condé Nast, em 2010. Depois acumulou o comando da Infoglobo, em 2015, do Valor Econômico, em 2016, e das operações de rádio, em 2020. Presidiu ainda a Associação Nacional de Editores de Revistas entre 2012 e 2016. Era, portanto, um dirigente experiente, familiarizado com a responsabilidade de representar grandes marcas de comunicação.
Nas mensagens, porém, a postura institucional dá lugar a um registro bem menos respeitável. Ao comentar a presença de Deborah Secco no Baile da Vogue de 2024, Kachar escreveu: “Eu só olhava pra bunda dela rs”. Também descreveu Sabrina Sato como “Soltinha”.
O conteúdo é especialmente constrangedor porque transforma profissionais presentes em um evento ligado ao próprio grupo em objetos de avaliação sexual. As assessorias das duas artistas repudiaram as insinuações e negaram vínculos com Vorcaro. Deborah informou que sua relação com Kachar era estritamente profissional. O banqueiro nem sequer estava naquele baile. Não há fundamento para transformar a conversa dos dois homens em uma descrição verdadeira da conduta das mulheres citadas.
A reverência ao banqueiro também aparece nos relatos de festas privadas. Segundo as mensagens publicadas por O Antagonista e TV Pop, Kachar agradeceu um convite e reagiu com admiração às histórias de Vorcaro sobre suas noitadas. “Ídolo máximo, então. Isso eu jamais consegui”, escreveu.
A inversão de papéis chama atenção: um executivo com enorme poder empresarial se apresenta como admirador das supostas façanhas do anunciante. A crítica que cabe é à bajulação e à intimidade incompatível com o distanciamento esperado de sua função — uma postura servil diante de alguém interessado no prestígio e na exposição oferecidos pelos veículos que ele administrava.
Essa proximidade alcançava assuntos concretos. Segundo o UOL, Vorcaro pediu espaço para Martha Graeff, sua então namorada, e sua marca de suplementos. Kachar respondeu: “Vou pautar Vogue, Marie Claire e Ela”. Três dias depois, as publicações veicularam reportagens sobre a Happy Aging. Na mesma sequência de conversas, o executivo cobrou ajuda para destravar um contrato publicitário.
O material também contém episódios em que Kachar defendeu jornalistas diante de reclamações do banqueiro. Isso impede uma conclusão simplista de que toda a cobertura estivesse subordinada a Vorcaro. Ainda assim, prometer destaque editorial enquanto negocia publicidade expõe um conflito evidente entre responsabilidades que deveriam permanecer separadas.
Outro aspecto revelador é a insistência de Kachar em obter atenção. O Terra reproduziu mensagens nas quais ele cobrava respostas, procurava encontros e lembrava um presente enviado ao banqueiro. Em uma delas, perguntou: “Brigou comigo sem eu saber?”. Em outra, insistiu: “Caríssimo, não esquece de mim?!”
As cobranças por atenção já aparecem em outubro de 2023. Um integrante da família Marinho identificado por O Antagonista nas conversas é Roberto Marinho Neto, CEO da Globo Ventures, braço de investimentos do grupo. Vorcaro pediu seu contato a Kachar.
A ironia está no papel de intermediário: enquanto buscava preservar a proximidade com o anunciante, Kachar também ajudava a abrir caminhos para que ele alcançasse outros centros de poder empresarial. Isso permite discutir a utilidade daquela relação. Teria Frédéric sido descartado pelo banqueiro depois da aproximação com a família controladora?
A resposta pública da Globo concentrou-se na relação comercial e na defesa de suas redações. A companhia afirmou ter conhecido as conversas na quarta-feira (14), demitiu o executivo no dia seguinte e reconheceu seus 29 anos de serviços. Na nota, o grupo reafirmou a independência editorial e apontou sua própria cobertura crítica do caso Master como demonstração desse compromisso.
Há uma ausência significativa nessa manifestação: a empresa não tratou explicitamente dos comentários misóginos. Para um grupo que abriga publicações voltadas ao público feminino, o silêncio específico sobre a exposição das artistas merece cobrança. A Agência Pública também perguntou sobre eventuais denúncias ao setor de compliance e informou não ter recebido resposta até a publicação. Kachar e Vorcaro tampouco haviam respondido aos questionamentos da agência naquele momento.
O caso expõe um problema que ultrapassa o constrangimento de mensagens privadas: a facilidade com que prestígio empresarial, dinheiro publicitário e intimidade pessoal podem se misturar. A demissão encerra o vínculo de Kachar com a Globo. As perguntas sobre os limites dessa proximidade — e sobre como mulheres foram tratadas por quem ocupava posições de poder — continuam abertas.