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CRÔNICAS

Morre Jomard, o tropicalista ícone da cultura pernambucana que apelidou Natal de "A Londres Nordestina"

12/10/2026 - 18:19

Morto aos 89 anos no Recife, poeta, cineasta e provocador cultural deixou na capital potiguar amizades, debates e uma ligação com a vanguarda que lhe rendeu o título de cidadão natalense



Morre Jomard, o tropicalista ícone da cultura pernambucana que apelidou Natal de

A cultura pernambucana perdeu nesta segunda-feira (12) uma de suas vozes mais inquietas. Jomard Muniz de Britto, poeta, filósofo, professor e cineasta, morreu aos 89 anos, no Recife. Articulador do tropicalismo em Pernambuco e referência do cinema experimental, fez da criação uma forma de desafiar convenções, enfrentar autoridades intelectuais e abrir espaço para novas maneiras de pensar o Nordeste.


Em 1968, ao lado de Celso Marconi e Aristides Guimarães, assinou o manifesto “Porque somos e não somos tropicalistas”. Sua atuação aproximou a efervescência pernambucana das experiências de Caetano Veloso, Gilberto Gil e de artistas de outros estados. Para Jomard, a cultura regional podia dialogar com guitarras elétricas, cinema de invenção, poesia experimental e transformações do comportamento.


Esse posicionamento o colocou em confronto com concepções tradicionalistas e com o Movimento Armorial, liderado por Ariano Suassuna, de quem havia sido aluno. As divergências alimentaram debates na imprensa e atravessaram sua produção artística. Jomard questionava a transformação da tradição em regra e defendia a liberdade de reinventar as referências culturais.


No cinema, encontrou no Super-8 um campo fértil para essa inquietação. Filmes como “O Palhaço Degolado” e “Inventário de um Feudalismo Cultural” combinaram crítica, humor e performance, confrontando figuras e estruturas de poder da cultura pernambucana. Ao longo da carreira, realizou mais de 30 filmes e vídeos, publicou livros e escreveu para o teatro.


Nascido no Recife em 8 de abril de 1937, formou-se em Filosofia e integrou a equipe de educação de adultos de Paulo Freire. A ditadura o perseguiu, levou-o à prisão e interrompeu sua trajetória universitária. Mesmo assim, continuou ensinando, escrevendo e participando da vida cultural. Sua influência atravessou gerações e fronteiras estaduais — e encontrou em Natal um território de amizades e afinidades.


Na capital potiguar, Jomard deixou uma definição que atravessou décadas: “Natal, a Londres nordestina”. A expressão resumia seu entusiasmo por uma cidade que reconhecia como aberta às novidades, à circulação de ideias e à experimentação artística.


O médico e poeta Napoleão Veras o recorda como uma figura que marcou época em Natal e no Nordeste. Em seu relato, o pernambucano movimentava o ambiente cultural com declarações, entrevistas e conferências. Veras lembra uma apresentação no Teatro Alberto Maranhão como demonstração do prestígio que Jomard desfrutava entre os potiguares.


A presença também se fazia longe dos palcos. Napoleão guarda a lembrança de uma madrugada no Iara Bar, em Areia Preta, no fim dos anos 1980, que avançou até o amanhecer. Jomard conduzia a conversa com sua prosa envolvente e encontrava em José Bezerra Marinho um interlocutor à altura. A cena preserva uma dimensão importante daquela convivência: o pensamento circulava nas mesas, nas provocações e nos encontros sem hora para terminar.


Veras destaca ainda a amizade com Dailor Varela, companheiro de copo e integrante do universo do Poema/Processo. O movimento e seus participantes despertaram o interesse de Jomard, sempre atento às experiências que ampliavam as possibilidades da poesia.


Essa ligação deixou registros concretos. Jomard colaborou com a revista natalense A Margem — Inform-Ação Cultural. A edição número 12, de 1987, apresenta um texto seu ao lado de trabalhos de artistas como Falves Silva e Anchieta Fernandes. A publicação integrava uma rede de poesia experimental e arte postal que conectava a produção potiguar a criadores brasileiros e estrangeiros.


O intercâmbio vinha de antes. Em 1968, o manifesto “Inventário do nosso feudalismo cultural” reuniu adesões de diferentes estados, incluindo o Rio Grande do Norte, aproximando tropicalistas e participantes do Poema/Processo. Natal fazia parte dessa movimentação, e Jomard ajudava a estabelecer o diálogo entre grupos interessados em romper limites estéticos.


A cidade reconheceu oficialmente essa proximidade em 1996. Jomard recebeu o título de cidadão natalense em 11 de dezembro daquele ano, por iniciativa de Franklin Capistrano. A homenagem formalizava uma relação construída por meio de amizades, debates e participação na vida cultural.


A “Londres nordestina” lembrada por Napoleão também aparece em outros depoimentos. Em entrevista à Tribuna do Norte, Alceu Valença recordou que Jomard considerava Natal cosmopolita. Ao comentar a abertura cultural da cidade, o músico mencionou o Poema/Processo e sua experiência histórica de contato com o mundo.


Outro vínculo potiguar aparece nas memórias do compositor Mirabô Dantas. Antes de conhecer Geraldo Azevedo pessoalmente, os dois já sabiam um do outro por intermédio de Jomard. Nas visitas a Natal, ele falava de Geraldo para Mirabô e fazia o caminho inverso quando encontrava o pernambucano. Era também assim, pela conversa, que ajudava artistas a se aproximarem.


Jomard estava internado com infecção respiratória e tinha doença de Parkinson, segundo informações da família publicadas pelo Jornal do Commercio. O velório e o sepultamento foram anunciados para esta segunda-feira, no Cemitério de Santo Amaro, no Recife.


Sua despedida alcança Pernambuco, onde construiu uma obra decisiva, e Natal, onde encontrou parceiros de criação e de conversa. Nas lembranças de Napoleão Veras, permanecem o Teatro Alberto Maranhão, Dailor Varela e a madrugada em Areia Preta. Na memória da cidade, fica o olhar de quem enxergou uma capital inquieta, capaz de conversar com o mundo.

Adeus Jomard, o homem que enxergou Londres na pequenina Natal.