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CRÔNICAS

O personalismo e a esterilidade das lideranças

11/10/2026 - 14:05

Alex Medeiros

O personalismo e a esterilidade das lideranças

A esquerda persiste num equívoco que atravessa a história e que, longe de ser episódico, revela-se estrutural. É o culto à personalidade, prática que, sob a aparência de coesão e força simbólica, produz líderes vaidosos, concentra poder e, no longo prazo, impede a formação de novas lideranças. É assim desde Stálin até Lula. O personalismo, em vez de consolidar instituições, as esvazia; em vez de projetar futuro, amarra o processo ao ciclo biológico de um indivíduo. Quando um partido se organiza em torno de uma figura dominante, cultuada em modo sectário, as regras internas enfraquecem, a sucessão se torna improvisada e a lealdade se dirige à pessoa, não a um projeto.


O resultado é previsível. A centralização burocrática, sufocamento de dissidências e, quando o líder se ausenta, fragmentação ou declínio. Essa dinâmica não é exclusiva de regimes autoritários; ela se manifesta também em democracias, sob formas mais sutis, porém igualmente corrosivas. 
O próprio guru da esquerda, Karl Marx, numa carta de 1877 a Wilhelm Blos, expressava aversão ao culto à personalidade, recusando homenagens públicas e alertando contra a crença supersticiosa na autoridade. Seu amigo e mecenas Friedrich Engels partilhava da mesma cautela. Décadas depois, Leon Trotsky denunciaria a burocratização stalinista e o culto ao “chefe infalível” como traição ao espírito coletivista do marxismo.


Nikita Khrushchev, no XX Congresso do partido comunista russo, em 1956,rntornaria pública a crítica ao culto de Stalin, reconhecendo os danos causados à teoria e à prática socialistas. 
Mesmo o sociólogo Max Weber, não pertencente à tradição de esquerda, ofereceu a chave conceitual ao descrever a autoridade carismática como efêmera, destinada a se institucionalizar ou a se desmantelar com o desaparecimento do líder.


A história confirma a tese. De Stalin a Mao, de Fidel Castro a Nicolas Maduro e outros caudilhos comunistas, o culto produziu ditadores e esvaziou a capacidade de renovação. 
A esquerda, que se pretende herdeira da racionalidade crítica (mas acabou no na vadiagem do identitarismo), frequentemente sucumbe ao impulso messiânico de conferir a um homem atributos quase sobrenaturais.


No Brasil, o fenômeno tem particular nitidez com Lula, a quem chamo Stalinácio, e que vive agora o seu ocaso. O carisma pessoal continua sendo o principal ativo eleitoral do PT. No entanto, após décadas de hegemonia simbólica, o partido não apresenta sucessor capaz de reunir, ao mesmo tempo, voto e aura. 
Nomes surgem e desaparecem; nenhum consegue emancipar-se da sombra do fundador. A legenda, dependente do capital político de um único homem, enfrenta o risco clássico descrito pelos analistas do personalismo: a ausência de mecanismos institucionais de substituição cobra seu preço.


O culto à personalidade não constrói lideranças; ele as impede. Ao concentrar prestígio, recursos e narrativa em torno de uma figura, sufoca o debate interno, desestimula a ascensão de novos quadros e transforma o partido em extensão da biografia do líder. E vira uma seita, como é hoje a esquerda brasileira. 
Quando este se retira, por idade, derrota ou morte, resta o vazio institucional e a nostalgia improdutiva.

Uma esquerda que pretenda longevidade democrática precisa, portanto, romper com esse equívoco histórico. Não se trata de negar o papel das personalidades, mas de subordiná-las às instituições, aos programas e estatutos. A trajetória petista com Lula continuará a produzir, ciclicamente, líderes vaidosos e sucessões dramáticas, adiando uma renovação verdadeira.