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Fé em disputa: Aparecida vira terreno estratégico na corrida pelo voto católico

11/10/2026 - 12:41

Lula e Flávio disputam eleitores religiosos, enquanto Alckmin, Kassab e outros nomes da política mantêm ligação com o santuário; arcebispo pede que romarias não alimentem divisões


Fé em disputa: Aparecida vira terreno estratégico na corrida pelo voto católico

A disputa pela Presidência também passa pelos símbolos da fé. Às vésperas do Dia de Nossa Senhora Aparecida, celebrado nesta segunda-feira (12), o maior destino de peregrinação católica do país ganha peso eleitoral: comparecer a uma missa, visitar o santuário ou aparecer com a imagem da padroeira são gestos capazes de transmitir identificação com milhões de brasileiros.


Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), adversários no segundo turno, não eram esperados nas celebrações de segunda-feira, segundo as informações disponíveis. Já o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), novamente candidato a vice na chapa de Lula, confirmou presença. Católico e natural de Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba, Alckmin tem uma ligação antiga com a região e com o santuário.


Outro frequentador das cerimônias é Gilberto Kassab, presidente do PSD e candidato a vice na chapa de Ronaldo Caiado no primeiro turno. A reportagem do g1 destaca ainda Renan Santos (Missão), que visitou a basílica em 22 de setembro, durante sua campanha presidencial.


Lula se declara católico. Flávio, que se apresenta como evangélico, buscou demonstrar proximidade com os devotos ao erguer uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um ato em São Paulo, em 28 de setembro, ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).


O gesto ocorreu em meio à circulação da informação falsa de que Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A associação resgatava um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli e arquivado no ano seguinte. Flávio não era autor da proposta, negou a intenção atribuída a ele e recorreu à Justiça.


Segundo a CNN Brasil, integrantes da campanha temiam que uma visita à basílica depois da polêmica fosse interpretada como oportunismo. Também pesava o fato de o santuário estar numa região ligada a Alckmin. Apesar da controvérsia, Flávio venceu o primeiro turno no município de Aparecida, com 58,30% dos votos, contra 32,12% de Lula.


O interesse eleitoral tem uma dimensão nacional. Nos resultados preliminares do Censo 2022 sobre religião, o IBGE registrou 100,2 milhões de católicos, equivalentes a 56,7% da população com dez anos ou mais. Embora essa participação tenha diminuído desde 2010, o catolicismo permanece como o maior grupo religioso do país. Os evangélicos representavam 26,9% nessa mesma faixa populacional.


A divisão aparece nas intenções de voto. Na Quaest de 3 de outubro, citada pelo g1, Lula tinha 44% entre católicos, contra 36% de Flávio. Entre evangélicos, Flávio registrava 50%, e Lula, 28%. São números anteriores ao primeiro turno, não uma medição atual da segunda rodada.


A aproximação política com Aparecida atravessa partidos e eleições. Jair Bolsonaro visitou o santuário em 2018, 2021 e 2022. Ciro Gomes e Fernando Haddad estiveram no local na campanha de 2018; José Serra e Dilma Rousseff, em 2010. A CNBB também promoveu debates presidenciais em Aparecida em 2014 e 2018. Em 2022, o encontro foi cancelado após as ausências de Lula e Bolsonaro.


Para especialistas ouvidos pelo g1, esses gestos comunicam afinidade com valores e identidades religiosas. A polarização amplia a repercussão dos símbolos de fé e facilita sua exploração pelas campanhas.


A Igreja, porém, procura impedir que a celebração se transforme em confronto. À frente de sua primeira Festa da Padroeira como arcebispo de Aparecida, dom Mário Antônio da Silva pediu que os peregrinos não levem divisões políticas ao santuário. Em entrevista à Folha, afirmou:

“A unidade cristã não exige que todos pensem igual, mas que todos reconheçam a dignidade uns dos outros.”


Além de Alckmin, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), confirmou presença nas celebrações. Para receber os romeiros, a segurança foi reforçada, com previsão de quase 660 policiais militares entre sábado e segunda-feira. A expectativa é que mais de 40 mil peregrinos percorram a pé a Rodovia Presidente Dutra — um retrato da dimensão popular de uma devoção que as campanhas tentam converter em identificação eleitoral.