O que Cury ganha com Flávio?
Escritor abandonou a neutralidade após conversa de mais de uma hora e assinatura de oito compromissos; acordo descarta cargos, mas abre caminho para influência política
O apoio de Augusto Cury (Avante) a Flávio Bolsonaro (PL) foi antecipado por uma preocupação com sua imagem política. Segundo aliados ouvidos pela CNN Brasil, o escritor temia que manifestações de dirigentes de seu partido favoráveis a Lula fossem interpretadas como uma aproximação dele com o presidente. A saída foi anunciar a adesão ao adversário antes mesmo de retornar da Europa.
O movimento contraria a posição de neutralidade apresentada durante a campanha, quando Cury dizia que não apoiaria nenhum dos dois. A mudança ocorreu após contatos da equipe de Flávio e uma videoconferência de mais de uma hora, na quinta-feira (8). Lula havia manifestado interesse em procurá-lo, mas, segundo a CNN, não chegou a conversar diretamente com o escritor.
A negociação teve uma condição explícita: Flávio deveria assinar um documento incorporando oito compromissos defendidos por Cury. O termo reúne propostas para educação, telemedicina no SUS, proteção às mulheres, cooperativismo, crédito para microempresas, produção de alimentos, fim da reeleição presidencial e pacificação nacional.
Entre as medidas estão mudanças nos currículos escolares, valorização dos professores, uso de inteligência artificial na saúde e financiamento de pequenos negócios por meio do BNDES. A assinatura transforma essas pautas em compromissos públicos de campanha, mas não garante sua execução: parte depende de orçamento, articulação política e aprovação do Congresso.
O que Cury ganha com a aliança? A leitura política possível é que o escritor busca manter relevância após sair da disputa e ampliar a influência de suas propostas sobre um eventual governo. Ao exigir um documento, também constrói uma justificativa programática para abandonar a neutralidade. Essa interpretação não equivale a comprovação de interesse financeiro ou benefício privado.
Sobre cargos, a posição pública de Cury é categórica: ele afirmou que não pretende participar de um eventual governo Flávio e que manterá liberdade para cobrar e criticar o aliado. O acordo também declara não envolver privilégios ou vantagens pessoais. As reportagens consultadas não apresentam comprovação de negociação por ministério, contrato ou favorecimento empresarial.
Há, porém, uma questão ainda sem resposta clara. Segundo a Exame, durante a campanha Cury havia condicionado um possível apoio a esclarecimentos de Flávio sobre suspeitas relacionadas ao Banco Master. Ao confirmar a aliança, destacou os compromissos assumidos pelo senador, mas não explicou se considerava atendidas aquelas exigências anteriores. A mudança deixa espaço para uma cobrança objetiva: o que foi esclarecido para que o apoio se tornasse possível?
Para Flávio, o ganho político é a adesão do terceiro colocado no primeiro turno, que recebeu cerca de 3,4 milhões de votos. A transferência desse eleitorado, entretanto, não é automática. A AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta sexta-feira aponta preferência por Lula entre os entrevistados que votaram em Cury. Como as entrevistas ocorreram entre 3 e 8 de outubro, o levantamento não permite medir o efeito do anúncio de apoio.