Janja vira alvo de fogo amigo e aliados cobram menos exposição na campanha de Lula
Kátia Abreu questiona protagonismo da primeira-dama e pede mais espaço para Alckmin; assessoria de Janja afirma que ela continuará na campanha com respaldo do presidente.
A cobrança por mudanças na campanha de Lula chegou à primeira-dama. Depois de o presidente terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL), Janja passou a enfrentar críticas de aliados que questionam seu espaço nos palanques e sua influência nas decisões eleitorais. O incômodo saiu das conversas reservadas e virou discussão pública justamente quando o PT tenta reorganizar a campanha para o segundo turno.
Uma das vozes mais diretas é a da ex-senadora Kátia Abreu, coordenadora da campanha petista no Tocantins. Em reunião com aliados na terça-feira (6), ela defendeu mais espaço para o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). Na avaliação desse grupo, o ex-governador paulista pode ajudar Lula a conversar com eleitores de centro e ampliar a aproximação com empresários.
Nesta quinta-feira (8), Kátia voltou ao assunto em entrevista ao jornal O Globo e fez uma pergunta que resume o tamanho do desconforto: “Nesta hora, qual é a prioridade: aparecer ou eleger o marido?” Para ela, a exposição de Janja precisa ser avaliada pelo resultado eleitoral que entrega. A ex-senadora afirma que sua cobrança é estratégica, sem relação com gênero.
Entre os episódios que alimentam a insatisfação está o ataque da primeira-dama ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), chamado por ela de “piá de bosta”. Segundo a coluna de Tatiana Farah, do UOL, dirigentes petistas consideram que a declaração deu munição ao adversário. Trata-se, porém, de uma avaliação desses aliados: não há demonstração de quantos votos o episódio teria influenciado.
Até as apresentações de Janja cantando um jingle de teor evangélico nos comícios entraram na lista de queixas. Integrantes da campanha ouvidos pelo UOL avaliam que a iniciativa pode dificultar a aproximação com esse público, em vez de ajudar Lula a conquistar espaço entre os religiosos.
Outra cobrança envolve os eventos com artistas. Conforme relatos publicados pela Folha de S.Paulo, aliados questionam se essas agendas conseguem alcançar novos eleitores ou acabam concentradas em um público que já apoia o presidente. O debate ganhou força com a necessidade de buscar votos fora da base petista.
O clima de frustração também apareceu em uma reunião virtual com cerca de 60 artistas, influenciadores e profissionais da comunicação. Segundo a coluna de Túlio Amâncio, do SBT News, Janja lamentou que a decisão de acabar com as bets não tivesse provocado a reação eleitoral esperada pelo governo. Participantes relataram que ela chorou ao comentar o resultado do primeiro turno.
Nesse encontro, a discussão incluiu a necessidade de aproximar a campanha das preocupações cotidianas da população. Combate à fome, educação, segurança pública e manutenção de direitos apareceram entre os assuntos que deveriam ganhar mais espaço na comunicação dos apoiadores.
Apesar da pressão, a primeira-dama não anunciou qualquer afastamento. Em nota divulgada na quarta-feira (7), seu gabinete respondeu: “Independente do que falem, Janja seguirá na campanha. Sua participação é legítima e sempre respaldada pelo presidente Lula.”
A insatisfação interna também alcança outros integrantes do comando petista. Segundo o UOL, Edinho Silva e o próprio Lula recebem críticas pela condução do primeiro turno. O presidente, por sua vez, reclamou da organização da campanha durante uma reunião com parlamentares.
Janja permanece no centro de uma disputa sobre os próximos passos da candidatura. Enquanto parte dos aliados cobra menos exposição da primeira-dama e maior participação de Alckmin, Lula mantém o apoio à atuação da esposa. A campanha tenta conciliar essas posições enquanto busca ampliar seu eleitorado no segundo turno.