Marte ao amanhecer: imagem da Nasa revela paisagem impressionante e um mistério de bilhões de anos
Registro do Curiosity mostra a luz da manhã sobre rochas esculpidas pelo vento; formação pode guardar vestígios de antigas erupções vulcânicas
Por alguns instantes, a paisagem até lembra um deserto da Terra: terreno rochoso, penhascos recortados no horizonte e a luz da manhã revelando os contornos das montanhas. Mas o cenário fica em Marte. A Nasa divulgou um novo panorama registrado pelo robô Curiosity, que transforma um amanhecer distante em uma janela para o passado do planeta.
A imagem foi apresentada pela agência na terça-feira (6), mas os registros foram feitos em 11 de agosto, às 8h30 no horário local marciano. O panorama reúne seis fotografias da câmera Mastcam, combinadas depois de serem transmitidas à Terra.
Um detalhe ajuda a explicar o visual: os responsáveis pelo processamento dispensaram o ajuste habitual de balanço de branco, preservando a aparência da iluminação daquela manhã, com tons azulados no primeiro plano e rochas iluminadas ao longe.
As formações que chamam atenção no horizonte têm nome: yardangs. São cristas rochosas esculpidas pela erosão do vento. Segundo o cientista Ashwin Vasavada, responsável pelo projeto Curiosity, a camada provavelmente se formou há cerca de 3 bilhões de anos e se estende por aproximadamente 16 quilômetros na região noroeste do Monte Sharp.
A hipótese é que areia ou até cinzas vulcânicas tenham sido transportadas para a cratera, acumulando-se e se transformando em rocha. Depois, o vento teria trabalhado lentamente esse material, produzindo os recortes que aparecem na fotografia. A origem exata ainda está em investigação.
O que intriga os pesquisadores é que essa camada parece destoar das demais: tem outra cor e uma inclinação diferente. A equipe espera alcançar sua base em 2027, quando o braço robótico do Curiosity poderá ajudar a examinar de perto o que hoje aparece como uma paisagem distante.
Desde que pousou na cratera Gale, em 2012, o veículo explora pistas sobre a história marciana. Em 2014, começou a subir o Monte Sharp, uma montanha de cerca de cinco quilômetros de altura. Ao longo dessa jornada, acumulou mais de um quilômetro de ganho de elevação.
Cada camada atravessada ajuda a reconstruir uma época diferente. A região hoje árida já abrigou lagos e riachos, e suas rochas preservam informações sobre a transformação de Marte em um mundo muito mais seco. Investigar esse passado também permite avaliar se o planeta teve condições favoráveis à vida microbiana — algo diferente de afirmar que ela existiu.
É isso que torna o registro tão interessante: enquanto a gente admira a luz sobre as montanhas, os cientistas observam pistas de uma história que começou bilhões de anos antes de haver alguém na Terra capaz de fotografá-la.