O Segredo de Fátima
Alex Medeiros
Em abril, publiquei na minha coluna da Tribuna do Norte uma nota, a partir da informação de um petista raiz, que a governadora Fátima Bezerra, mesmo desistindo de uma candidatura ao Senado, entraria na campanha do PT com a faca nos dentes, e não apenas para defender seus candidatos, mas para se vingar dos que – na avaliação dela – traíram a aliança. Pela ordem, Waltinho, Zenaide e Hermano.
Alguns leitores mais antenados com o jogo político local opinaram pelo WhatsApp indagando como a petista teria forças para catapultar candidatos e boicotar adversários diante das estatísticas de desaprovação do seu governo e da própria imagem pessoal. Respondi que a fase era ruim mesmo, mas não descartaria a porção Wilma de Faria que Fátima tem como animal político.
É preciso conhecer a trajetória da governadora, os caminhos que ela fez entre o movimento estudantil, a atividade sindical e a militância partidária. Entre a garota que ouvia rock na loja Discol e a líder política existem quatro décadas. E nesses anos todos, há diversos gestos e ações de Fátima para cada tipo de conjuntura pontual que ela precisou atravessar. A começar pelas disputas internas no PT, onde jamais foi derrotada por grupos e colegas antagônicos.
Seu protagonismo na esfera petista poderia ter se expandido no campo político suprapartidário já nos anos 1990, não tivesse ela rejeitado um apoio de Aluízio Alves na disputa à prefeitura de Natal quando foi ao segundo turno com Wilma. Ela perdeu a campanha, mas não demorou e o PT se aliou com a própria Wilma, que deixou de ser tratada pelos petistas como “primeira dama do AI 5” e se tornou uma versão cabocla da Joana D’arc nas lutas contra oligarquias.
Fátima aprendeu rápido a consumir o caldo de cultura no balcão político local, abrindo portas antes rejeitadas pelos companheiros e mesmo quando fechou algumas, manteve as aparências da formalidade como sinal de civilidade. Enfrentou grupos tradicionais como Alves e Maia com a mesma postura de uma dialética de comportamento que também servia para compor com eles, como aconteceu em momentos distintos. E adquiriu respeito de empresários.
Se bem que alguns, lá no começo desse século, transpareciam desconforto em vê-la conversando com lideranças industriais como Fernando Bezerra, Bira Rocha, Flávio Azevedo, Amaro Sales. Tricotou com Agripino e Garibaldi. Não se negou a compor uma chapa como senadora da família Alves, como quem reconhece um erro tático do passado. E terminou compondo com Robinson Faria numa campanha que derrotaria Henrique, o herdeiro Alves.
A resiliência apagou rápido uma fragorosa derrota para Micarla de Sousa na eleição de prefeita. Ninguém na esquerda potiguar soube tão bem por em prática negociações com divergentes no que se chama petismo de resultado. E aquilo não significou mudança no preconceito histórico do PT com as elites. Só que Fátima demonstra melhor capacidade de disfarce e não permite que velhos pruridos ideológicos atrapalhem costuras que alcancem prioridades.
Quis ser, por exemplo, a senadora numa composição com o PMDB, em um projeto pessoal que tinha como estratégia partidária o apoio dos Alves à candidatura de Dilma Rousseff. Não deu certo, e fez isso com Robinson. Hoje, muitos analistas tentam entender como Fátima Bezerra – com rejeição na estratosfera – fez Samanda superar Zenaide, o PT crescer na Assembleia onde Waltinho e Hermano não voltam, e pode eleger Cadu. Eis aí o seu segredo.