Empresas em debandada
Olha só que momento interessante para a gente estar vivendo. Enquanto o
Brasil já começa a esquentar o clima de eleições gerais e a sucessão
presidencial, aquele afamado período em que todo mundo vira especialista em
soberania, “não vamos baixar a cabeça” e promessas de protecionismo com
discurso inflamado, a tensão comercial com os EUA sobe de tom e as empresas
brasileiras se veem diante de uma escolha bem menos patriótica: continuar
tentando exportar daqui ou simplesmente instalar a fábrica lá mesmo, em
território americano.
No último dia 13, o governo Lula abriu formalmente o processo da Lei da
Reciprocidade Econômica, aquele mecanismo que o Planalto acha que pode resultar
em contramedidas às novas tarifas impostas pela Casa Branca.
Em outras palavras: depois que as barreiras americanas entraram em
vigor, Brasília respondeu com o clássico “se você me taxar, eu também taxo”.
Resultado imediato? Mais incerteza para quem depende do mercado americano.
Cerca de 5,6 mil empresas brasileiras, espalhadas por dezenas de setores, já
sentem o impacto.
O governo, claro, não ficou parado. Lançou um pacote para ajudar as
companhias a caçar mercados alternativos: promoção comercial em 36 destinos diferentes
dos EUA, com a ApexBrasil pronta para apoiar uns 5,3 mil empresas de 35
setores.
Uma bela estratégia de diversificação… Enquanto, do outro lado do
Atlântico, o dinheiro continua fluindo para os EUA como se nada estivesse
acontecendo.
Os números mais recentes do Bureau of Economic Analysis (divulgados em
junho de 2026) mostram que, em 2025, investidores estrangeiros despejaram US$
232,2 bilhões em aquisições, criações ou expansões de empresas nos EUA, um
salto de 49,5% em relação a 2024.
E nos primeiros três meses de 2026 já foram 485 projetos anunciados,
somando US$ 73,2 bilhões. O próprio governo Trump segue atraindo capital
estrangeiro com o SelectUSA, aquele programa do Departamento de Comércio feito
sob medida para facilitar a vida de quem quer produzir lá dentro.
E as brasileiras? Já estão bem acomodadas: quase US$ 40 bilhões
investidos em solo americano e mais de 100 mil empregos gerados por lá. Ou
seja, enquanto por aqui a gente discute sucessão presidencial e discursos de
autossuficiência, parte do empresariado brasileiro parece estar fazendo as
contas e concluindo que, às vezes, a melhor forma de enfrentar a barreira
comercial… é simplesmente atravessá-la.