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CRÔNICAS

No balanço do amor

17/08/2026 - 09:09



No balanço do amor

Entre tantas canções que marcaram meus vinte anos, entre os outubros de 1979 e 1980, eu arriscaria escolher uma como trilha sonora daqueles meus dias: a icônica “Love Boat”, gravada em 1977 por Jack Jones e logo adotada como tema da série homônima que a TV ABC exibiu entre 1977 e 1986 e que chegou no Brasil exatamente em 1979, no horário das 21h, na TV Globo.

Para quem gosta e entende a pegada de uma balada pop romântica, sabe o motivo da minha escolha. A música que virou tema da série tem a essência do ritmo que mexeu com a juventude na aurora da década de 1980, com harmonia e cadência apropriadas para uma dança a dois nas pistas dos clubes e dos bailes de aniversário, como vivi na Candelária, Mirassol e Nova Descoberta.

Quanto aos capítulos da série O Barco do Amor, nas noites da Globo, eram a mistureba de paqueras, sonho de consumo e aventura de viagem; um navio de cruzeiro singrando os mares numa época que nem existiam tais passeios.

A trama foi inspirada em três filmes do gênero, todos já baseados num livro chamado The Love Boats (assim no plural), de Jeraldine Saunders, ela própria criadora da série e considerada a pioneira dos famosos cruzeiros marítimos.

Os episódios destacavam as aspirações aventureiras e os estorvos românticos dos passageiros, que tinham o apoio moral da atenciosa e animada tripulação, liderada pelo Capitão Merrill Stubing e a bela e loira diretora Julie McCoy.

O sucesso do seriado contou com a química entre o elenco e, principalmente, à presença constante de grandes estrelas convidadas, oriundas diretamente de Hollywood. Ao longo de uma década, quase 600 apareceram nos episódios.

Emprestaram seu brilho figuras como Ginger Rogers, Gene Kelly, Dom Adams, Ursula Andress, Linda Blair, Ernest Borgnine, Cyd Charisse, Tom Hanks, Courtney Cox, Billy Crystal, Jamie Lee Curtis, Ron Ely e Michael J. Fox…

Também Zsa Zsa Gabor, Janet Jackson, Dorothy Lamour, Ruta Lee, Gina Lollobrígida, Lee Majors, Virginia Mayo, Leslie Nielsen, Vincent Price, Adam West (Batman), Telly Savalas, Dick Sargent (o marido da Feiticeira)…

E Julie Newmar (Mulher Gato), Cesar Romero (Coringa), Jacklyn Smith (pantera), Stella Stevens, Lana Turner, Mickey Rooney, os grupos Menudo, Village People, The Globetrotters e até Andy Warhol, que valia por muitos.

O Barco do Amor foi mais que uma comédia romântica ambientada num navio de luxo; foi um artefato cultural que refletiu o espírito otimista e escapista único dos EUA desde o final da década de 1970 até meados da década de 1980.

Depois do Vietnã, de Watergate e da estagnação econômica dos anos 70, a série foi um bálsamo político-cultural reconfortante. Um espaço livre de cinismo, onde o amor era possível e os problemas resolvidos ao pôr do sol.

Quando o Barco do Amor ancorou no Brasil, eu estava navegando entre os portos afetivos de Nova Descoberta e Candelária; baladas nos Embalos de Sábado à Noite, de 77, e Grease, 78; e política com Apocalipse Now, de 79.
A personagem Julie McCoy, de sorriso radiante na sensual beleza loira, já era um recado sutil da evolução da mulher, pouco antes de Malu Mulher entrar no ar. E também era o figurino da paixão que ali pertinho me esperava em 1980.