Fim da escala 6x1 entra na pauta do Senado em momento estratégico da eleição
Calendário pode favorecer o governo e ampliar o protagonismo de Alcolumbre
O fim da rotina de seis dias de trabalho para apenas um de descanso volta ao centro do debate político. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), marcou para terça-feira, 6 de outubro, o início das discussões da proposta em plenário. Também haverá sessões na quarta e na quinta-feira, mas a conclusão da votação ainda depende de negociação entre os senadores.
A PEC 221/2019 reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem corte salarial, e garante duas folgas remuneradas. A transição seria gradual: dois meses após a publicação da emenda, começariam os dois dias de descanso e o limite de 42 horas. A redução para 40 horas viria ao completar 14 meses. Categorias com jornadas especiais poderão adotar compensações, sem obrigação de concentrar as folgas no sábado e no domingo.
A proposta já foi aprovada pela Câmara e pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Na comissão, Rogério Marinho (PL-RN) esteve entre os quatro senadores contrários ao texto e defendeu maior flexibilidade para organizar jornadas e escalas. O relator, Omar Aziz (PSD-AM), argumenta que mais descanso pode melhorar a produtividade e estima que a mudança alcance mais de 37 milhões de trabalhadores. A aprovação no plenário exige pelo menos 49 votos favoráveis em cada um dos dois turnos.
O calendário escolhido chama atenção. A discussão começa depois que os eleitores terão escolhido deputados e senadores, mas enquanto a disputa presidencial poderá continuar aberta. Isso cria uma oportunidade para Lula explorar uma pauta de forte apelo popular na reta final da campanha. Aliados do governo já articulam encurtar os prazos para tentar concluir a votação antes do segundo turno.
Nesse cenário, Alcolumbre também pode colher ganhos políticos. Ao movimentar a proposta, aproxima sua imagem de uma reivindicação dos trabalhadores e reforça seu peso nas negociações com o Planalto. O gesto permite uma leitura de convergência entre interesse eleitoral do governo, busca de protagonismo do presidente do Senado e negociação parlamentar — sem que isso, por si só, comprove um acordo eleitoral nos bastidores.
Há ainda um efeito importante: a decisão fica para depois da eleição dos próprios congressistas, reduzindo a possibilidade de o eleitor cobrar nas urnas o posicionamento de cada um nessa votação. Enquanto isso, o governo poderá continuar apresentando a mudança como uma de suas principais bandeiras.
O teste será transformar a pauta em decisão. Abrir as discussões já produz repercussão política, mas garantir duas folgas semanais depende de reunir votos e concluir a tramitação e essa passagem do anúncio para a prática que realmente importa.