Jornalismo Independente & Opinião
CRÔNICAS

Uma crônica de outubro

02/10/2026 - 20:40

Alex Medeiros

Uma crônica de outubro

Na semana em que o Supremo e o TSE protagonizaram, em cadeia, decisões que mudaram regras de debate, retiraram posts e reacenderam disputas de jurisdição, o Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM) soltou uma nota quase poética sobre a 82ª Divisão Aerotransportada: “18 horas de antecedência. Qualquer lugar do mundo.” No Brasil de 2026, a frase soou menos como exercício de prontidão e mais como metáfora de um tempo político em que tudo pode ser desfeito e refeito entre um despacho e outro do Gilmar Mendes.

A reta final do primeiro turno das eleições presidenciais foi marcada menos por propostas e mais por liminares. Em poucas horas, o TSE e o STF alteraram a composição de um debate na TV Globo, obrigando a emissora a incluir candidatos que não estavam no acordo original — e, com isso, o próprio debate foi cancelado, sob o argumento de interferência indevida na liberdade de imprensa.


Enquanto os tribunais brasileiros ajustavam o ritmo da campanha, vinha de fora outra camada de tensão. Reportagens do The Guardian indicaram que o governo de Donald Trump destinou US$ 1 milhão a um programa chamado “Countering Lawfare and Censorship in Brazil”, voltado a financiar grupos da sociedade civil críticos ao STF.


O PT, a menos de três dias do primeiro turno, levou ao ministro Flávio Dino, do STF, uma lista de “fatos novos” sobre suposta interferência estrangeira, citando propaganda financiada do exterior e o programa de US$ 1 milhão. A campanha de Lula pediu ao STF e ao TSE investigação sobre possível ingerência dos EUA e até a cassação da chapa de Flávio Bolsonaro.


Foi nesse contexto que a mensagem do SOUTHCOM ganhou contorno de crônica. A 82ª Divisão Aerotransportada, baseada em Fort Bragg, na Carolina do Norte, é especializada em operações de entrada forçada com paraquedistas e pode ser mobilizada em até 18 horas para assegurar objetivos estratégicos em qualquer lugar do mundo.


No Brasil, onde decisões judiciais podem mudar o curso de um debate em questão de horas, a ideia de tropas prontas para pousar em “18 horas” soa como um espelho distorcido do próprio tempo político: aqui, o que muda em 18 horas não são posições de paraquedistas, mas entendimentos sobre liberdade de imprensa, jurisdição do TSE e remoção de posts.


A imprensa, nesse teatro, virou palco e alvo. Emissoras viram regras de debates alteradas por liminares; veículos foram acusados, de diferentes lados, de favorecer candidatos ou de se curvar a ordens judiciais; e a própria cobertura passou a girar em torno dos tribunais, mais do que das plataformas de governo.


E no meio da tarde da sexta-feira, veio a notícia em ritmo de dominó, com uma nação atrás da outra fechando embaixadas e cancelando serviços consulares no Brasil. EUA, Inglaterra, Canadá, Austrália e Nova Zelândia alertaram seus cidadãos quanto aos riscos de segurança no Brasil. Não é ficção; é o resumo de uma semana em que vimos nossos próprios conflitos institucionais se entrelaçarem com acusações de interferência estrangeira e com a linguagem fria da prontidão militar.


No fim, a pergunta que fica não é só sobre quem interfere em quê, mas sobre que tipo de democracia cabe num calendário em que tudo — debates, posts, narrativas, alianças — pode ser suspenso, revisto ou cancelado em 18 horas. E, enquanto isso, a 82ª Divisão segue de prontidão, como um símbolo de que, para alguns, o mundo ainda se mede em tempo de operação; para nós, em tempo de liminar.