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POLÍTICA

Virada de Cadu? Pesquisas divergem na reta final no RN

01/10/2026 - 12:23

AtlasIntel e Affare colocaram o petista numericamente à frente, enquanto Consult, Quaest, Exatus, Metadata e Media registraram Allyson na primeira posição; diferença entre os levantamentos exige cautela antes de falar em uma virada consolidada


Virada de Cadu? Pesquisas divergem na reta final no RN

A poucos dias da eleição, as pesquisas para o Governo do Rio Grande do Norte passaram a apresentar cenários bastante diferentes entre si. O contraste chama atenção porque Allyson Bezerra (União Brasil) ocupou a primeira posição em grande parte dos levantamentos realizados ao longo da campanha, muitas vezes com vantagem expressiva. Nesta reta final, porém, AtlasIntel e Affare apresentaram Cadu de Lula (PT) numericamente à frente.


A pesquisa AtlasIntel divulgada em 29 de setembro registrou Cadu com 37,1%, Álvaro Dias (PL) com 27,3% e Allyson com 27,1%. O levantamento ouviu 1.207 eleitores entre 23 e 28 de setembro e informou margem de erro de três pontos percentuais. No cenário de segundo turno entre Cadu e Allyson, os dois também aparecem praticamente igualados.


Nesta quinta-feira, o Instituto Affare apresentou outro retrato em que Cadu surge numericamente na frente, com 32,9%. Allyson aparece com 30,4% e Álvaro, com 28,8%. Nesse caso, porém, a margem de erro é de 4,9 pontos percentuais, o que coloca os três candidatos em empate técnico. Portanto, a liderança numérica de Cadu não significa que a pesquisa consiga demonstrar uma vantagem estatisticamente clara sobre os adversários. 


O cenário é muito diferente daquele encontrado pela Consult/Tribuna do Norte. Na última pesquisa antes do primeiro turno, realizada entre 24 e 26 de setembro, Allyson aparece com 36,18%, Álvaro com 24,41% e Cadu com 22%. A distância entre Allyson e o petista é superior a 14 pontos percentuais, enquanto apenas 2,41 pontos separam Álvaro e Cadu. 


A Quaest também encontrou Allyson com vantagem significativa. No levantamento divulgado em 25 de setembro, o candidato do União Brasil marcou 39%, contra 21% de Cadu e 18% de Álvaro. A pesquisa ouviu 804 eleitores entre 21 e 24 de setembro, com margem de erro de três pontos. 


Outros institutos produziram resultados semelhantes. A Exatus registrou Allyson com 44,11%, Cadu com 22,52% e Álvaro com 20,60%. A Metadata encontrou 43,25% para Allyson, 22,28% para Cadu e 17,37% para Álvaro. Já o Instituto Media mostrou uma disputa menos desigual, mas ainda com Allyson numericamente em primeiro: 31,5%, contra 27,1% de Álvaro e 21,5% de Cadu. 


Esse conjunto de números ajuda a entender por que é precipitado interpretar os resultados da Atlas e da Affare como prova de uma virada já consolidada no eleitorado potiguar. Há sinais claros de crescimento de Cadu durante a campanha, mas a intensidade desse movimento muda muito conforme o instituto observado.


A série histórica da Exatus é particularmente ilustrativa. Em abril, Cadu aparecia com 10,74%. Passou para 12,61% em maio, 13,74% em julho, 17,59% no começo de setembro, 21,07% na rodada seguinte e 22,52% no levantamento mais recente. Em poucos meses, portanto, mais que dobrou seu percentual. O crescimento existe e é consistente dentro da própria série, mas ocorreu de maneira progressiva, sem um salto repentino para patamares próximos de 37%. 


Ao mesmo tempo, a própria série da Exatus mostra algo importante sobre Allyson: ele não apresentou queda semelhante à sugerida pela Atlas. O ex-prefeito de Mossoró tinha 37,29% em abril e chegou a 44,11% no levantamento realizado entre 21 e 23 de setembro. Ou seja, nessa série, Cadu cresceu bastante sem que isso significasse uma perda equivalente de Allyson. 


Há ainda um detalhe essencial para entender a aparente surpresa provocada pela AtlasIntel. Para o próprio instituto, Cadu já vinha em posição muito forte anteriormente. Isso significa que o levantamento desta semana não necessariamente captou uma arrancada ocorrida nos últimos dias, mas pode refletir características da metodologia e da amostra utilizadas pela Atlas, que historicamente produziram um cenário diferente de outros institutos no RN.


Pesquisas realizadas por empresas diferentes não precisam apresentar resultados idênticos. Elas podem variar pela forma de selecionar entrevistados, pelo método de coleta — presencial, telefônico ou digital —, pela maneira de ponderar a amostra e até pela forma como as perguntas e os nomes são apresentados. Quando essas diferenças se repetem em várias rodadas, pesquisadores costumam observar o chamado “efeito de casa”, em que determinadas metodologias tendem a registrar sistematicamente resultados um pouco diferentes de outras.


Isso não significa que uma pesquisa esteja necessariamente certa e outra errada. Cada levantamento é uma estimativa obtida a partir de uma amostra do eleitorado. Por isso, a comparação mais segura não é feita apenas entre institutos diferentes, mas também acompanhando a evolução de cada candidato dentro da mesma série.


Existem, entretanto, fatores políticos capazes de ajudar a explicar o crescimento de Cadu ao longo da campanha. Um deles é a nacionalização da disputa. O petista passou a utilizar de maneira intensa a identificação “Cadu de Lula”, buscando aproximar sua candidatura do presidente, que registra desempenho elevado entre os eleitores do Rio Grande do Norte. Na última Consult, Lula apareceu com 47,41% das intenções de voto no estado. Essa associação pode favorecer Cadu entre eleitores que inicialmente conheciam pouco seu nome, embora não seja possível medir apenas pelas pesquisas quanto desse crescimento decorre diretamente do apoio presidencial. 


Outro elemento é o aumento da exposição do candidato ao longo da campanha. Cadu começou a disputa com nível de conhecimento inferior ao de Allyson e Álvaro, ambos ex-prefeitos de cidades importantes do estado. Horário eleitoral, inserções de televisão, eventos de campanha e a presença constante de Lula em sua comunicação deram ao petista uma oportunidade maior de se apresentar ao eleitorado.


Nas últimas semanas, Allyson também se transformou no principal alvo dos dois adversários mais próximos. Cadu e Álvaro intensificaram críticas envolvendo a passagem do candidato pela Prefeitura de Mossoró e a Operação Mederi. Allyson nega envolvimento em irregularidades e chegou a defender publicamente a retirada do sigilo das investigações. Não existe, até agora, evidência de pesquisa que permita medir quanto essas acusações alteraram as intenções de voto, mas elas passaram a ocupar espaço relevante na campanha justamente na reta final.


Também não é possível atribuir os resultados mais recentes à retirada da candidatura de Robério Paulino e ao apoio do PSOL a Cadu. A decisão foi anunciada apenas em 30 de setembro, depois do encerramento das entrevistas de Atlas, Consult e dos demais levantamentos citados. Qualquer efeito desse movimento político só poderia aparecer em pesquisas realizadas depois da mudança.


O quadro disponível, portanto, permite afirmar que Cadu chegou aos últimos dias da campanha muito mais competitivo do que estava meses atrás. O que os dados não permitem afirmar é que exista uma virada comprovada e generalizada sobre Allyson. Atlas e Affare mostram um cenário em que o petista alcança ou supera numericamente o candidato do União Brasil, enquanto vários outros institutos continuam encontrando uma vantagem expressiva de Allyson.


A divergência torna a eleição potiguar especialmente interessante porque as urnas servirão também como um teste dos diferentes retratos produzidos pelos institutos. Se Cadu realmente tiver avançado para a faixa dos 30% ou mais, Atlas e Affare terão captado uma mudança que outras pesquisas não detectaram com a mesma intensidade. Caso os resultados se aproximem das séries de Consult, Quaest, Exatus, Metadata e Media, ficará evidente que a corrida permaneceu mais parecida com o padrão observado durante a maior parte da campanha.


Por enquanto, o ponto de maior consenso entre os levantamentos não é uma eventual virada, mas o crescimento de Cadu e a transformação da disputa que, meses atrás, parecia muito mais confortável para Allyson. A dimensão real dessa mudança, entretanto, permanece aberta — e será conhecida definitivamente apenas com a contagem dos votos no domingo.