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POLÍTICA

Bets, Santa e Bola

30/09/2026 - 09:43

EDITORIAL

Bets, Santa e Bola

Segundo dados da empresa Datrix, levantados para a revista Exame, entre os dias 18 e 27 de setembro, Lula esteve associado a uma avalanche de conversas e memes sobre as bets, enquanto Flávio Bolsonaro apareceu em um volume bem menor de publicações. O saldo de sentimento quanto a Lula foi 14,8% negativo e quanto a Flávio foi 27,7% positivo.

A primeira explicação está na própria natureza do assunto. O debate sobre o Supremo, que durante boa parte do período dominava as conversas sobre Lula, é politizado e relativamente previsível. Há militantes de um lado, adversários de outro e um público que acompanha a crise institucional. As bets são diferentes; entram na vida cotidiana de uma multidão emocional. O Flamengo e o Corinthians não são apenas clubes de futebol. São duas gigantescas comunidades nacionais, uma dimensão social que ajuda a compreender por que qualquer decisão sobre financiamento do futebol pode escapar rapidamente do círculo tradicional da política.

A questão fica ainda mais concreta quando se olha para o dinheiro. A proibição das bets atingiu uma engrenagem que havia se tornado parte importante da economia do futebol, cerca de R$ 1 bilhão anual de patrocínios aos clubes da Série A. Isso transforma uma medida econômica e regulatória em assunto de torcedor. O cidadão que vê na bet uma ameaça ao orçamento familiar pode receber a decisão de Lula como proteção. Mas o torcedor enxerga a medida como ameaça ao clube. E torcedor é uma categoria peculiar da vida brasileira. Ele pode não saber quem ocupa uma secretaria do governo, mas sabe quem patrocina sua camisa. Pode não acompanhar a votação de uma MP, mas sabe quanto vale o contrato do seu time.

O problema para Lula se torna maior porque sua argumentação colocou o futebol no centro do conflito. Ao defender o fim das apostas, disse que os clubes viveram e venceram antes das bets e que procurassem outros financiamentos.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, pode ter se beneficiado circunstancialmente de uma assimetria. Seu nome apareceu muito menos nos memes analisados. Isso significa que ele teve menos exposição ao julgamento negativo produzido pelo tema.

Há ainda outro episódio que complicou a comunicação de Lula: Nossa Senhora Aparecida. E é preciso separar duas coisas. A informação de que Flávio pretendesse retirar da santa o título de padroeira do Brasil era fake news. O projeto de lei de 2007, frequentemente associado ao rumor, foi arquivado em 2008 e não teve autoria de Flávio. Mas a política não é feita somente de fatos documentais. Ela é feita também de símbolos, memórias e associações.

Flávio havia declarado anteriormente que, caso eleito, faria um ato para "decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo". Aí explicou que se tratava de manifestação simbólica de fé. A frase tornou possível associá-lo ao universo evangélico. Do outro lado, Lula tentou ocupar o lugar de defensor da santa. Disse que "mexer com Aparecida" não era aceitável e afirmou respeitar as diferentes religiões. O problema é que o discurso não cabe na credibilidade acumulada pelo PT.

O discurso atual precisa conviver com episódios anteriores que oferecem munição aos adversários. Antes da polêmica da santa, Lula havia feito críticas à organização da Igreja Católica, defendendo mudanças no celibato e participação feminina no poder da Igreja. Para o eleitor católico, portanto, a imagem de Lula segurando Nossa Senhora pode produzir uma pergunta bastante simples: trata-se de uma convicção antiga ou de uma necessidade eleitoral do momento com ar de cinismo? É aí que a comunicação política encontra seu limite. Não basta possuir uma imagem; é preciso que a imagem seja coerente com o personagem que o público acredita conhecer. O PT cultuou um samba que zoava com Cristo.

E há uma ironia adicional. A mesma esquerda que durante décadas foi acusada de hostilidade ao cristianismo passou a utilizar a imagem de Aparecida como instrumento de campanha. A sociedade tem memória política. A explicação para a diferença entre Lula e Flávio nas redes, portanto, não está necessariamente numa suposta maior capacidade de comunicação de um ou de outro. Está na natureza dos assuntos que cada um carregou no momento.

Lula ficou no centro de duas discussões com enorme potencial de mobilização popular: uma mexendo com o bolso, o entretenimento e o futebol; outra mexendo com fé, identidade e tradição. Inseparável como governo e candidato. E as redes acrescentaram uma novidade. Antes, uma decisão presidencial era discutida por partidos, jornais, sindicatos, empresários. Hoje, ela chega ao grupo de WhatsApp do torcedor, ao perfil do clube, à página da torcida.

A bet transformou o eleitor em torcedor. Nossa Senhora transformou o eleitor em fiel. E, quando política consegue entrar simultaneamente no bolso, no coração e na arquibancada, a repercussão deixa de obedecer à lógica convencional das pesquisas de opinião. É por isso que os números da Datrix são mais interessantes do que parecem à primeira vista. Eles não dizem simplesmente que Lula "perdeu" e Flávio "ganhou" na internet. Mostram algo mais revelador: Lula foi associado a uma agenda de enorme mobilização popular, mas essa mesma agenda carregava alto potencial de rejeição.

No futebol, costuma-se dizer que o jogo muda quando a bola entra na área. Na eleição, as bets fizeram algo parecido: tiraram a política dos palanques e colocaram a bola do voto dentro da área das maiores torcidas do país.