Um buraco na parede
A crônica em que eu resgato a britânica Pauline Boty, me fez lembrar de uma
figura que volta e meia estampo aqui, desde meus dias de O Jornal de Hoje: a
modelo, atriz e cantora Jane Birkin, também inglesa e que teve importante papel
no caldo de cultura dos anos 1960. E vem na memória uma suspeita de quando vi a
loirinha pela primeira vez... Provavelmente em 1978, numa sessão do filme
“Wonderwall”, em Fortaleza.
O filme, que
no Brasil teve o título aportuguesado para O Muro das Maravilhas, estava
completando dez anos e foi exibido num encontro regional de jovens poetas, com a
chancela do DCE da UFC, que em 78 estava numa retomada do movimento estudantil.
Com trilha sonora de George Harrison o filme foi lançado em maio de 1968, no
epicentro das barricadas de Paris. Jane Birkin foi a estrela, mas quase não
fala durante mais de uma hora de projeção.
O enredo também
é quase nada. Um professor recluso, com olhos de sapo, descobre um furo na
parede do apartamento vizinho. E lá mora Penny, uma modelo, fotografada,
desejada, muda. Ele a espia. E nós espiamos com ele.
O filme todo
vira uma fechadura, e a câmera, cúmplice do voyeur, nos torna cúmplices também.
É pouco enredo para 92 minutos de delírio de acetato, e o diretor Joe Massot parecia
saber disso. Aí botou cor, textura e piração no vazio.
A fotografia
transforma cada plano em caleidoscópio; os cenários, assinados por holandeses
que pintaram paredes para os Beatles, são um chuvisco de mandalas e cores
ácidas. É a mistura das barricadas com o verão do amor.
Na época do
lançamento, a crítica não disfarçou para apontar o excesso cansativo de uma
estética lisérgica, que deveria ser vertigem, mas virou redundância, como se o
filme precisasse de alucinação a cada contraplano.
Há também os
exageros psicodélicos da era hippie, que teve em Harrison a porção
beatlemaníaca numa tendência que um ano depois perderia o rumo no rescaldo de
Woodstock e na sentença de John Lennon: “o sonho acabou”.
Na verdade,
não era um grande filme em 1968, continuaria simplório e confuso numa noite
obscura no Ceará e agora é a contraprova de que há diferença entre sonhar acordado
e empilhar clichês de sonho num arremedo de arte.
Talvez o
diretor nem sabia qual dos dois estava fazendo. Mas ao menos uma imagem sobrevive
a todo o excesso e ao tempo, e tem nome: ela, Jane Birkin. Calada o filme
inteiro, reduzida a puro objeto de desejo, mas sempre luminosa.
Não fosse sua
força sensual diante da câmera, tudo era desperdício. Ela que acabara de vir do
escândalo morno de Blow-Up
e que nem tinha ainda a voz em sussurro de gozo nos rádios do mundo, não
precisava mesmo de texto.
Seu corpo
era o texto. Seu olhar e gestos denunciavam algo de escultura viva no modo como
atravessa os cenários psicodélicos sem se deixar engolir por eles. Ao
contrário, o cenário existia só para emoldurá-la e a gente contemplar.
Toda aquela
orgia de cor foi apenas o fundo necessário para justificar uma mulher que, aos
vinte e um anos, já sabia ser mito antes de saber ser atriz. É apenas essa
presença plástica que resgata o filme do esquecimento histórico.
Bom, e há
George Harrison, quieto no canto, fazendo a coisa mais silenciosamente
revolucionária de 1968, que era gravar, sozinho, a primeira trilha de um beatle
fora dos Beatles. Wonderwall
Music for seu experimento. A trilha não
ilustra o filme, ultrapassa-o. O disco, primeiro selo da Apple, ecoou mais
longe do que as imagens que deveria acompanhar. Junto com Jane Birkin, é um
retrato do cinema britânico que fez do excesso sua linguagem.