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CRÔNICAS

Um buraco na parede

17/08/2026 - 08:38
Um buraco na parede

A crônica em que eu resgato a britânica Pauline Boty, me fez lembrar de uma figura que volta e meia estampo aqui, desde meus dias de O Jornal de Hoje: a modelo, atriz e cantora Jane Birkin, também inglesa e que teve importante papel no caldo de cultura dos anos 1960. E vem na memória uma suspeita de quando vi a loirinha pela primeira vez... Provavelmente em 1978, numa sessão do filme “Wonderwall”, em Fortaleza.

O filme, que no Brasil teve o título aportuguesado para O Muro das Maravilhas, estava completando dez anos e foi exibido num encontro regional de jovens poetas, com a chancela do DCE da UFC, que em 78 estava numa retomada do movimento estudantil. Com trilha sonora de George Harrison o filme foi lançado em maio de 1968, no epicentro das barricadas de Paris. Jane Birkin foi a estrela, mas quase não fala durante mais de uma hora de projeção.


O enredo também é quase nada. Um professor recluso, com olhos de sapo, descobre um furo na parede do apartamento vizinho. E lá mora Penny, uma modelo, fotografada, desejada, muda. Ele a espia. E nós espiamos com ele.

O filme todo vira uma fechadura, e a câmera, cúmplice do voyeur, nos torna cúmplices também. É pouco enredo para 92 minutos de delírio de acetato, e o diretor Joe Massot parecia saber disso. Aí botou cor, textura e piração no vazio.


A fotografia transforma cada plano em caleidoscópio; os cenários, assinados por holandeses que pintaram paredes para os Beatles, são um chuvisco de mandalas e cores ácidas. É a mistura das barricadas com o verão do amor.

Na época do lançamento, a crítica não disfarçou para apontar o excesso cansativo de uma estética lisérgica, que deveria ser vertigem, mas virou redundância, como se o filme precisasse de alucinação a cada contraplano.


Há também os exageros psicodélicos da era hippie, que teve em Harrison a porção beatlemaníaca numa tendência que um ano depois perderia o rumo no rescaldo de Woodstock e na sentença de John Lennon: “o sonho acabou”.

Na verdade, não era um grande filme em 1968, continuaria simplório e confuso numa noite obscura no Ceará e agora é a contraprova de que há diferença entre sonhar acordado e empilhar clichês de sonho num arremedo de arte.


Talvez o diretor nem sabia qual dos dois estava fazendo. Mas ao menos uma imagem sobrevive a todo o excesso e ao tempo, e tem nome: ela, Jane Birkin. Calada o filme inteiro, reduzida a puro objeto de desejo, mas sempre luminosa.

Não fosse sua força sensual diante da câmera, tudo era desperdício. Ela que acabara de vir do escândalo morno de Blow-Up e que nem tinha ainda a voz em sussurro de gozo nos rádios do mundo, não precisava mesmo de texto.


Seu corpo era o texto. Seu olhar e gestos denunciavam algo de escultura viva no modo como atravessa os cenários psicodélicos sem se deixar engolir por eles. Ao contrário, o cenário existia só para emoldurá-la e a gente contemplar.

Toda aquela orgia de cor foi apenas o fundo necessário para justificar uma mulher que, aos vinte e um anos, já sabia ser mito antes de saber ser atriz. É apenas essa presença plástica que resgata o filme do esquecimento histórico.


Bom, e há George Harrison, quieto no canto, fazendo a coisa mais silenciosamente revolucionária de 1968, que era gravar, sozinho, a primeira trilha de um beatle fora dos Beatles. Wonderwall Music for seu experimento. 
A trilha não ilustra o filme, ultrapassa-o. O disco, primeiro selo da Apple, ecoou mais longe do que as imagens que deveria acompanhar. Junto com Jane Birkin, é um retrato do cinema britânico que fez do excesso sua linguagem.