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POLÍTICA

“Se me deu whisky, já bebi”, diz Lula sobre suposto presente de Vorcaro

28/09/2026 - 12:36

Presidente afirma não saber se recebeu a bebida, questiona relato de advogado e comenta encontro com o ex-banqueiro; Planalto havia negado o presente


“Se me deu whisky, já bebi”, diz Lula sobre suposto presente de Vorcaro

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou não saber se recebeu um uísque de presente de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e respondeu com ironia ao ser questionado sobre o assunto. A declaração foi dada no domingo (27), durante entrevista ao programa Canal Livre, da Band, após a divulgação de mensagens em que o advogado Walfrido Warde relata um suposto agradecimento do presidente pela bebida.


“Se me deu whisky, já bebi”, declarou Lula. Em outro trecho, acrescentou: “Eu não fico contando quem me dá uísque”. O presidente disse receber muitos presentes e lembranças e não confirmou a entrega da garrafa mencionada nas conversas.


A resposta trouxe uma diferença em relação à manifestação anterior do Palácio do Planalto. Enquanto a comunicação oficial havia negado o recebimento do presente, Lula respondeu à pergunta dizendo não se recordar. Sua declaração, portanto, não confirma a versão atribuída ao advogado, mas também não repete a negativa categórica apresentada pela Presidência.


A origem da controvérsia é uma mensagem enviada por Warde a Vorcaro em 22 de janeiro de 2025, localizada no material extraído pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro. O advogado, que integrou a defesa de Vorcaro até o início deste ano, afirmou ter encontrado Lula naquele dia e transmitiu ao cliente um relato da conversa.


Na mensagem, Warde disse que o presidente havia perguntado se Vorcaro estava bem e mais tranquilo. Em seguida, mencionou um novo agradecimento pelo uísque e um abraço enviado ao empresário. O ex-banqueiro respondeu com um emoji de coração.


O detalhe do agradecimento supostamente repetido chamou atenção porque sugere, na versão do advogado, uma referência anterior ao presente. A mensagem, entretanto, registra o que Warde contou a Vorcaro: não é uma declaração escrita por Lula nem comprova, isoladamente, que a bebida tenha sido entregue.


Questionado sobre o relato, Lula colocou em dúvida a credibilidade do interlocutor. “Você acredita em tudo que um lobista fala?”, perguntou. O presidente também disse desconhecer o conteúdo das conversas e rejeitou a ideia de ser responsabilizado por afirmações feitas pelo advogado a terceiros.


Ao comentar o episódio, Lula retomou as críticas à Operação Lava Jato e afirmou que sua própria experiência o tornou cauteloso diante de acusações. “Não pense que eu esqueci o que foi feito comigo na Lava Jato”, declarou. Segundo ele, a decisão de não manter o assunto permanentemente em sua agenda está ligada à necessidade de seguir a vida sem alimentar ressentimento.


O caso envolve dois encontros distintos, que não devem ser confundidos. A mensagem de janeiro de 2025 se refere a uma conversa que Warde disse ter tido com Lula. Já a reunião entre o presidente e o próprio Vorcaro aconteceu em 4 de dezembro de 2024, 49 dias antes do diálogo sobre o uísque.


O encontro com o então controlador do Master ocorreu no Palácio do Planalto, foi intermediado pelo ex-ministro Guido Mantega e não constava previamente da agenda pública. Participaram também Rui Costa, então ministro da Casa Civil, e Gabriel Galípolo, à época diretor de Política Monetária do Banco Central.


Na entrevista, Lula relatou que Vorcaro chegou acompanhado de Augusto Lima, então sócio do banco, e reclamou de perseguição e de uma tentativa de quebrar a instituição. O presidente afirmou ter chamado Galípolo para participar da conversa e sustentou que as questões deveriam receber tratamento técnico do Banco Central.


Lula também disse não saber onde Mantega trabalhava ou quanto recebia quando intermediou a reunião. Ao explicar por que recebeu o empresário, afirmou: “Eu atendo centenas de empresários, de todos os níveis, pedido pelas mais diferentes fontes”.


As mensagens investigadas vão além da referência à bebida. Há relatos de articulações de Warde para estabelecer contato entre Vorcaro e integrantes do governo. Em um áudio de abril de 2024, o advogado mencionou uma solicitação para encaminhar por e-mail os assuntos que o empresário pretendia tratar com o presidente.


A Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirmou que Lula encontrou Vorcaro uma única vez, em dezembro de 2024, e negou que ele tivesse conhecimento de articulações entre o advogado e o empresário. O governo também destacou que a liquidação do Master e a prisão de Vorcaro ocorreram durante a atual gestão.


O episódio passou a integrar a disputa eleitoral. Em 23 de setembro, advogados da campanha de Flávio Bolsonaro apresentaram uma notícia-crime ao ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal, pedindo apuração sobre a relação entre Lula e Vorcaro. O pedido levanta suspeitas de favorecimento, mas sua apresentação não equivale à comprovação de irregularidades.


A controvérsia permanece centrada na divergência entre o relato do advogado, a negativa oficial do Planalto e a resposta de Lula na entrevista. O encontro com Vorcaro é reconhecido pelo presidente; o recebimento do uísque continua sendo uma alegação contestada.