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CRÔNICAS

Um pingo d'água

28/09/2026 - 10:55

Alex Medeiros

Um pingo d'água

A partir de 1975, quando fiz 16 anos, passei a ter medo, quase um pânico, da perspectiva de prestar o serviço militar obrigatório. Era terrível ouvir a propaganda radiofônica convocando os jovens ao alistamento. Quando chegou 1977, outro temor se incorporou: encarar a redação do vestibular que gerava boatos e lendas assustadoras com temas os mais estranhos e complexos.


Muitos da minha geração que foram enfrentar as provas acreditavam que a estreia da redação no concurso iria trazer um tema dificílimo, quase impossível para nosso modesto repertório gramatical. Rodou um rumor: “pingo d’água”. 
O tempo passou e no final dos anosrn1980 eu lembrei daquele pingo, e escrevi num tabloide alternativo (tenho dúvida entre A Franga e o Preto no Branco) o texto que poderia ter sido, ou não, a minha redação cinquenta anos atrás.


- Um pingo d’água: Existe quem defenda e declare que a grandeza das coisas não se mede pelo tamanho, mas pelo que elas guardam em si. Assim é, por exemplo, o pingo d'água. Ele é mínimo aos olhos, mas imenso ao pensamento. 
Vejo-o pousar na folha da goiabeira, no quintal de minha casa, redondo e trêmulo como se hesitasse entre cair e permanecer. E penso: quantos mundos cabem numa gota? Nela está o mar que a gerou, a nuvem que a trouxe, a terra que a espera.

É a mesma água que um dia já foi rio e será, depois, orvalho sobre outra folha, em outra manhã. Nada nela se perde; tudo nela se transforma. Vivemos tempos em que se fala muito em progresso, em fábricas, em estradas, em cidades que crescem sem olhar para trás. O homem moderno mede o mundo em quilômetros e em cruzeiros, e esquece, por vezes, de medir a vida em coisas simples.

O pingo d'água é um convite a essa outra medida. Ele não pede pressa, pede contemplação. Ensina que a paciência da natureza, que leva uma gota a esculpir a pedra, gota após gota, século após século, vale mais que toda a pressa dos homens. 
Lembro-me das palavras do poeta que li no banco da escola; que somos feitos, em grande parte, da mesma água que corre nos rios e cai das nuvens.

Se é assim, o pingo que hoje observo não me é estranho, é reflexo. Nele revejo minha própria pequenez diante do universo, e, ao mesmo tempo, minha participação nele. 
Sou gota também, parte de um ciclo maior que não termino de compreender. Termina o pingo por escorrer da folha e cair na terra, onde se perde de vista, mas não se perde de fato. Torna-se seiva, torna-se fruto, torna-se, talvez, um dia, chuva nova sobre outra plantação. 

Assim também deveria ser o homem. Humilde como a gota, mas consciente de que, mesmo pequeno, é parte indispensável de algo que o transcende. Se me perguntassem o que é a vida, eu diria: é como um pingo d'água, breve, redondo, reflexo do céu, e, no entanto, capaz, gota a gota, de transformar.