Atuação sofrível da Seleção Brasileira em primeiro jogo pós Copa aumenta pressão sobre Ancelotti
Brasil sofre diante da Austrália, repete problemas de criação e organização e só evita derrota no último lance
O gol de Rayan no último lance salvou o Brasil de uma derrota para a Austrália nesta sexta-feira (25), em Townsville, mas fez pouco para esconder o que aconteceu nos 90 minutos anteriores. No primeiro compromisso depois da eliminação nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, a Seleção empatou por 1 a 1 e apresentou novamente alguns dos problemas que já haviam acompanhado a equipe antes e durante o Mundial.
Mais do que o resultado de um amistoso, preocupa a dificuldade brasileira para controlar uma partida contra uma seleção tecnicamente inferior. O Brasil apresentou pouca criatividade no meio-campo, distâncias excessivas entre os setores e um ataque recheado de jogadores talentosos, mas incapaz de produzir coletivamente com regularidade.
O primeiro tempo foi especialmente ruim. A Austrália conseguiu ocupar os espaços deixados pelo Brasil e terminou a etapa com oito escanteios, contra apenas um da Seleção. Em determinados momentos, a equipe de Carlo Ancelotti parecia dividida em dois blocos: jogadores de defesa e meio tentando iniciar as jogadas e quatro atacantes esperando a bola mais à frente.
Era justamente um cenário que deveria estar sendo superado. Ancelotti escalou Estêvão, Raphinha, Endrick e Vinícius Júnior juntos, apoiados principalmente por Danilo e Bruno Guimarães. No papel, muito talento ofensivo. Em campo, porém, a quantidade de atacantes não se transformou automaticamente em poder de ataque.
O comentarista Danilo Lavieri resumiu a atuação de maneira contundente: “Pavoroso, pavoroso”. Ele destacou especialmente a falta de entrosamento ofensivo e avaliou que o gol marcado nos segundos finais não deveria alterar a análise sobre a partida.
A crítica atinge diretamente um problema que acompanha o Brasil há algum tempo: a Seleção possui atacantes de destaque em grandes clubes do futebol europeu, mas continua encontrando dificuldades para construir um meio-campo capaz de fazê-los jogar juntos.
O próprio Ancelotti já havia reconhecido essa deficiência quando anunciou a primeira convocação depois da Copa. “Nós temos um pouco de carência no meio-campo e isso pode determinar a mudança de jogo”, afirmou o treinador no início de setembro. O amistoso contra os australianos mostrou que o diagnóstico permanece atual.
Vini, Raphinha, Endrick e Estêvão pouco produziram juntos
A expectativa em torno do quarteto ofensivo não se confirmou. Vinícius Júnior teve atuação discreta, Endrick encontrou dificuldades para participar do jogo e Raphinha não conseguiu reproduzir na Seleção o protagonismo apresentado no futebol europeu. Estêvão mostrou alguns bons momentos, mas também esteve inserido em uma equipe com pouca fluidez.
Lavieri foi particularmente crítico ao desempenho do principal nome brasileiro: “O Vini Júnior, muito mal”. Para o comentarista, quando a bola chegava a jogadores como Vini, Raphinha, Endrick e Estêvão, era natural esperar que alguma jogada diferente surgisse, mas isso praticamente não aconteceu.
O problema, porém, não parece ser simplesmente individual. Quatro jogadores ofensivos de qualidade podem aumentar as possibilidades próximas à área, mas também podem deixar o time sem jogadores suficientes para construir as jogadas desde trás.
Foi justamente essa contradição que voltou a aparecer contra a Austrália. Bruno Guimarães ficou sobrecarregado na organização, enquanto os homens da frente frequentemente recebiam a bola em condições pouco favoráveis.
Austrália expôs as fragilidades brasileiras
A atuação australiana torna o desempenho brasileiro ainda mais incômodo. O adversário também iniciou um processo de renovação depois da Copa e chegou a esta Data Fifa com vários jogadores ainda sem partidas pela seleção principal entre os convocados.
Mesmo assim, a Austrália conseguiu pressionar e incomodar o Brasil durante boa parte do confronto.
No segundo tempo, Nestory Irankunda abriu o placar em cobrança de falta. O goleiro Hugo Souza foi criticado pela participação no lance e também demonstrou insegurança em algumas bolas aéreas.
Juca Kfouri concentrou suas críticas justamente no goleiro. “Não é nem pelo gol, que foi uma falha”, afirmou, antes de mencionar duas saídas ruins em cobranças de escanteio.
Quando a derrota parecia definida, Rayan apareceu. Aos 49 minutos do segundo tempo, o atacante marcou de cabeça após cobrança de escanteio e estabeleceu o empate por 1 a 1.
O gol premiou individualmente um dos jovens que fazem parte da renovação, mas não alterou o diagnóstico coletivo.
“Impressão muito ruim”
As críticas não ficaram restritas aos comentaristas do UOL. Denilson também demonstrou preocupação com o que viu em campo. “O peso de estar na seleção brasileira não muda”, afirmou o ex-jogador, destacando a responsabilidade que acompanha a camisa brasileira. Em seguida, resumiu: “Mas hoje a impressão que ficou foi muito ruim.”
Denilson apontou exatamente o setor que mais preocupa: a criação. Para ele, Ancelotti terá “muito trabalho” para encontrar um sistema diferente, capaz de aumentar a presença brasileira no meio-campo e impedir que a equipe fique excessivamente recuada.
Na imprensa espanhola, onde o trabalho de Ancelotti é acompanhado de perto por sua longa passagem pelo Real Madrid, também houve críticas e avaliações de que o treinador ainda terá muito trabalho para reorganizar a Seleção.
Ancelotti pede paciência
O treinador adotou um tom menos dramático. Ancelotti lembrou que está realizando experiências, dando oportunidades a jovens e tentando encontrar alternativas para o próximo ciclo.
“Temos que ser pacientes”, afirmou. Para ele, o empate teve aspectos positivos e negativos e não deve receber peso excessivo neste momento. O italiano também destacou que a equipe reagiu depois de sofrer o gol e lutou até a última bola.
“O torcedor tem que ser paciente e quando tivermos competições oficiais a equipe vai estar preparada”, declarou Ancelotti. O técnico também reclamou das condições do gramado em Townsville e confirmou que fará mudanças para o segundo amistoso contra os australianos.
Problemas vêm de antes de Ancelotti
A preocupação também precisa ser colocada em perspectiva. A Seleção não chegou a esse momento depois de um ciclo bem-sucedido.
Nas Eliminatórias para a Copa de 2026, o Brasil terminou apenas em quinto lugar, com 28 pontos e 51% de aproveitamento, sua pior campanha desde a adoção do atual formato de pontos corridos. O ciclo teve quatro treinadores e dezenas de jogadores convocados. Na Copa, a recuperação esperada não veio: o Brasil acabou eliminado pela Noruega nas oitavas de final.
É justamente por isso que um amistoso contra a Austrália ganha significado maior do que normalmente teria. Não porque empatar uma partida de preparação represente, isoladamente, uma crise, mas porque o jogo deveria começar a oferecer indícios de que os problemas anteriores estavam sendo corrigidos.
Eles não apareceram.
Em vez disso, reapareceram a dificuldade de criação, a dependência de ações individuais, a distância entre meio-campo e ataque e a sensação de que reunir grandes jogadores ofensivos ainda não significa construir uma grande equipe.
O gol de Rayan é uma das poucas notícias realmente positivas da partida. Aos 20 anos, o atacante representa uma geração que Ancelotti pretende observar de perto no caminho até 2030. Durante a Copa, o treinador já havia elogiado sua capacidade de contribuir ofensiva e defensivamente e afirmou que “ninguém sabe onde seu nível pode chegar”.
Mas o jovem atacante não pode servir de cortina para o desempenho coletivo desta sexta-feira.
O Brasil terá novos amistosos para testar jogadores e sistemas, e Ancelotti ainda dispõe de praticamente um ciclo inteiro até a próxima Copa. A estreia pós-Mundial, entretanto, mostrou que a reconstrução terá de ser mais profunda do que simplesmente trocar nomes.
O desafio não é encontrar mais um atacante talentoso. É fazer a Seleção voltar a funcionar como equipe.