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El Niño já causa prejuízo de R$ 68 milhões no RN e acende alerta para seca e abastecimento

25/09/2026 - 11:10

Fenômeno climático pode se intensificar nos próximos meses e preocupa principalmente o interior potiguar, onde agricultura, pecuária e reservatórios são mais vulneráveis à irregularidade das chuvas


El Niño já causa prejuízo de R$ 68 milhões no RN e acende alerta para seca e abastecimento


Os efeitos do El Niño já começam a pesar sobre a economia do Rio Grande do Norte. Levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) estima em aproximadamente R$ 68 milhões os prejuízos registrados no estado em 2026, em um cenário que preocupa produtores rurais e municípios dependentes das chuvas para manter lavouras, rebanhos e reservas de água.


A atenção agora se volta para os próximos meses. Projeções meteorológicas indicam elevada probabilidade de fortalecimento do El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e capaz de alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.


No Nordeste brasileiro, o El Niño costuma estar associado a condições menos favoráveis para as chuvas, embora não seja o único fator que determina se uma estação será seca ou chuvosa. A temperatura do Oceano Atlântico, por exemplo, exerce influência decisiva sobre as precipitações no semiárido nordestino.


No Rio Grande do Norte, a maior preocupação está justamente no interior. Uma redução ou distribuição irregular das chuvas pode provocar perdas nas lavouras, diminuir a disponibilidade de pastagens, elevar os custos para alimentação dos rebanhos e comprometer a recuperação de açudes e reservatórios.


O impacto ultrapassa o campo. Quando a produção agropecuária diminui, os efeitos podem chegar ao comércio das pequenas cidades, à renda das famílias e aos preços de determinados alimentos. Municípios que dependem fortemente da agricultura e da pecuária tendem a sentir com maior intensidade períodos prolongados de estiagem.


Um estado historicamente marcado pelas secas

A preocupação tem uma forte dimensão histórica. Grande parte do território potiguar está inserida no semiárido brasileiro, região caracterizada por chuvas irregulares e elevada evaporação. Por isso, períodos de vários anos com pouca água fazem parte da história econômica e social do estado.


O Rio Grande do Norte já enfrentou algumas das secas mais severas registradas no Nordeste. Entre 2012 e 2017, por exemplo, uma estiagem prolongada provocou forte redução dos reservatórios e levou diversas cidades a situações críticas de abastecimento.


Um dos símbolos dessa vulnerabilidade é a Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, no Vale do Açu. Maior reservatório do estado, ela é fundamental para o abastecimento de dezenas de municípios e também para atividades agrícolas. O comportamento dos grandes reservatórios costuma ser acompanhado de perto justamente porque uma boa estação chuvosa pode garantir segurança hídrica por vários anos, enquanto sequências de invernos fracos reduzem rapidamente essa margem.


El Niño não significa automaticamente seca

Apesar do alerta, a presença do El Niño não permite afirmar antecipadamente que o Rio Grande do Norte terá uma grande seca. O regime de chuvas do estado depende da combinação de diferentes fenômenos atmosféricos e oceânicos.


Um deles é a Zona de Convergência Intertropical, conhecida pela sigla ZCIT, considerada um dos principais sistemas responsáveis pelas chuvas no norte do Nordeste durante os primeiros meses do ano. As condições do Atlântico Tropical podem favorecer ou dificultar sua atuação sobre a região.


Por isso, meteorologistas acompanham não apenas o Pacífico, onde nasce o El Niño, mas também as temperaturas das águas do Atlântico próximas às costas brasileira e africana.


Para a população potiguar, o efeito mais importante será observado na quantidade e, principalmente, na distribuição das chuvas. Não basta chover muito em poucos dias: para agricultura, pecuária e recuperação consistente dos reservatórios, é importante que as precipitações ocorram de maneira relativamente bem distribuída ao longo da estação.


Com prejuízos econômicos já contabilizados e possibilidade de intensificação do fenômeno, os próximos meses serão decisivos para saber até que ponto o El Niño afetará o cotidiano dos potiguares — das propriedades rurais do Seridó e do Oeste aos sistemas responsáveis pelo abastecimento das cidades.