Que mistério tem Clarice
Alex Medeiros
Em 1977, o tempo parecia correr em duas velocidades distintas, como se o relógio do mundo decidisse o que deveria guardar na memória e o que precisava deixar nascer. Eu tinha dezessete anos, a idade em que a pele é fina demais e tudo o que vem de fora bate direto no peito.
Trazia debaixo do braço a calorosa (ou calourosa) perplexidade de quem acabava de cruzar os portões da universidade, um território que cheirava a fumaça de cigarro, panfletos mimeografados e uma urgência silenciosa. O Brasil, esticado sob um manto cinzento, ensaiava os primeiros passos de uma abertura que ainda parecia promessa de vento em dia de estio.
Havia uma tensão no ar, uma poeira de resistência cultural que se misturava aos acordes do rádio e às discussões de corredor. Foi exatamente ali, naquele compasso de espera político e existencial, que Clarice Lispector nos entregou seu último suspiro em forma de páginas. A Hora da Estrela.
Enquanto eu tateava o campus e aprendia os primeiros jargões acadêmicos, Clarice, em seu apartamento no Leme, sitiada pela doença, despia-se de si mesma para dar vida a Macabéa. A escritora se despedia do mundo de cá criando uma personagem que mal sabia que existia.
Macabéa, a moça de Alagoas que comia cachorro-quente e achava que a cultura era o reverso de tudo o que nós, jovens cheios de pose e ideais, queríamos debater. Nós queríamos mudar a estrutura do país; Clarice, em seu momento terminal, queria apenas capturar o milagre doloroso de uma existência invisível.
O livro era um soco macio. Clarice escrevia com a pressa de quem sabe que a vela está no fim, trocando o ponto final por uma respiração suspensa. Ela morreu em dezembro. A estrela dela se apagava para virar constelação definitiva na nossa literatura.
Mas o mistério do ano de 1977 não se encerrava no luto pela escritora ou no peso da conjuntura política. O destino, mestre em costurar miudezas enquanto os grandes eventos acontecem, estava ocupado com outro milagre. Lembro-me bem das tardes em que eu saía das aulas, com a cabeça fervendo de teorias, e ia caminhar pelo bairro vizinho à faculdade. Eu procurava adivinhar em que casa estaria a paquera da Candelária que estava por lá.
As necessidades logísticas da irmã mais velha, com filhos pequenos, a convocava de vez em quando para auxiliar na dura missão de dona de casa. O Brasil lá fora discutia o AI-5, chorava Clarice e ouvia uma Tropicália tardia. Quando entrou 1978, o ambiente no Campus começou a dar sinais de mudança com as primeiras conversas sobre eleição do DCE e de centros acadêmicos (os CAs) e a chegada de professores oriundos de todo o país.
Muitos desses professores vinham de situações de constrangimentos, de censura por participações em movimentos classistas. Chegaram com pique e gás de incrementar modelos de ensino baseados nas próprias bagagens. Naquela conjuntura nova, a poesia e a política estudantil me apanharam. Foi um tempo de novos amigos, alunos e professores: Lincoln Moraes, Moisés Domingos, Salete Machado, Hugo Manso, Ângela Tigel, Homero Costa...
Olhando para trás, a poesia da vida me assombra. Em 1977, eu era um garoto, com a cabeça cheia de Clarices e Alices e os pés gastando o asfalto perto e longe da faculdade. Foi um ano onde tudo aconteceu na mesma engrenagem, no cenário perfeito para o fim e o começo se darem as mãos.