Advogada ligada à Kassio Nunes Marques faz visitas frequentes a Vorcaro na prisão e chama atenção de integrantes da defesa
Camilla Ramos mantém encontros reservados com o ex-banqueiro; advogada afirma que as visitas tratam de processos bilionários de precatórios e nega qualquer irregularidade
A frequência das visitas da advogada Camilla Ramos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro na prisão passou a chamar a atenção de integrantes de sua equipe de defesa. As informações foram publicadas originalmente pela jornalista Mônica Bergamo, colunista da Folha de S.Paulo, que ouviu advogados com acesso à rotina do empresário.
Segundo a reportagem, Vorcaro possui uma relação de advogados autorizados a visitá-lo. A maior parte integra escritórios responsáveis pela defesa criminal ou acompanha assuntos relacionados à liquidação do Banco Master. Camilla, porém, atua principalmente em causas cíveis relacionadas a precatórios e não integra a linha de frente da defesa criminal do ex-banqueiro.
Advogados ouvidos por Mônica Bergamo disseram estranhar a frequência das visitas. Segundo esses relatos, quando Camilla chega para se reunir com Vorcaro, outros defensores deixam o local para que os dois conversem reservadamente. Um dos profissionais afirmou que os encontros aparentam envolver informações consideradas sensíveis e sigilosas. Essa percepção, entretanto, é atribuída aos advogados ouvidos pela jornalista e, por si só, não representa indício de irregularidade.
Camilla Ramos afirma que existe uma justificativa profissional para os encontros. Por meio de sua assessoria, informou estar regularmente habilitada em cerca de 20 processos envolvendo precatórios adquiridos pelo Banco Master e que visita Vorcaro para atualizá-lo sobre o andamento dessas ações. Segundo a advogada, nenhum desses processos tramita atualmente no Supremo Tribunal Federal.
A explicação é questionada por alguns integrantes da defesa, que observam que o Banco Master está em liquidação extrajudicial e deixou de ser administrado por Vorcaro. Na avaliação desses profissionais, questões relativas aos ativos e passivos da instituição deveriam ser tratadas com a administração responsável pelo processo de liquidação.
O nome de Camilla ganhou maior exposição após a divulgação de documentos e mensagens relacionados ao caso Master. Ela é casada com o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Em mensagens atribuídas ao celular de Vorcaro, o casal aparece associado à expressão “Turma do KN”, interpretada nas reportagens publicadas sobre o caso como uma possível referência ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal.
Camilla e Newton Ramos são descritos nas reportagens como pessoas próximas de Nunes Marques. A Folha de S.Paulo informou anteriormente que o ministro utilizou uma aeronave de empresa ligada a Vorcaro para participar de uma festa de aniversário de Camilla em Alagoas. Mensagens também mencionariam o desembargador em conversas relacionadas a hospedagens e eventos.
Nunes Marques afirma que nunca autorizou terceiros a falar em seu nome, nega ter feito pedidos a Daniel Vorcaro e sustenta que jamais atuou para beneficiar pessoalmente o empresário ou o Banco Master.
O contexto ganhou nova dimensão após reportagem da jornalista Andreza Matais, do Metrópoles, revelar detalhes de um contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, do qual Camilla faz parte.
Segundo a apuração, o contrato previa honorários equivalentes a 5% dos valores eventualmente obtidos pelo banco em caso de êxito em 12 processos relacionados a precatórios. Considerando os valores envolvidos nas ações, os honorários poderiam alcançar aproximadamente R$ 427 milhões.
As disputas judiciais envolvem créditos bilionários relacionados a indenizações associadas ao antigo controle de preços exercido pelo Instituto do Açúcar e do Álcool. O Banco Master aparece nos processos como credor ou cessionário de parte desses créditos.
Mensagens divulgadas nas reportagens mostram Camilla acompanhando o andamento dessas causas e comentando com Vorcaro decisões relacionadas às teses discutidas nos processos. Em uma das conversas, ela teria avaliado positivamente um voto de Kassio Nunes Marques.
O ministro afirma que o julgamento mencionado não tratava especificamente do Banco Master, mas de uma tese jurídica mais ampla, aplicável a diferentes empresas. Nunes Marques também declarou que nunca trocou mensagens diretamente com Vorcaro.
Newton Ramos, por sua vez, reconheceu que sua mulher atuava profissionalmente em causas cíveis relacionadas ao Banco Master e afirmou que o casal mantinha relação pessoal com Vorcaro antes dos fatos atualmente investigados. O desembargador também declarou que nunca julgou processos de interesse do banco e que situações envolvendo imóveis, viagens e transportes ocorreram em âmbito privado, sem relação com suas funções públicas.
Camilla Ramos também rejeita qualquer sugestão de atuação irregular. Em manifestação divulgada por sua assessoria, afirmou que os contratos são lícitos, que os processos continuam submetidos ao Poder Judiciário e que sua atuação ocorreu dentro dos limites legais, com habilitação formal nas respectivas ações.
As visitas frequentes passaram, assim, a integrar um conjunto mais amplo de questionamentos surgidos a partir de mensagens, contratos e documentos relacionados ao Banco Master e a Daniel Vorcaro.
O ponto central levantado pela reportagem original de Mônica Bergamo está na frequência e na natureza reservada desses encontros, especialmente em um momento no qual o Banco Master já se encontra sob processo de liquidação e fora da administração direta de Vorcaro.