Buenos Aires no escuro: apagão atinge cerca de 600 mil usuários
Falha deixou bairros da capital argentina e municípios da região metropolitana sem energia, reacendendo questionamentos sobre a qualidade do serviço após aumentos que chegaram a superar 600%
Um apagão de grandes proporções deixou cerca de 600 mil usuários sem energia elétrica na noite deste sábado (19) em Buenos Aires e em diferentes pontos da região metropolitana. O fornecimento começou a ser restabelecido gradualmente ainda durante a noite, mas milhares de famílias permaneceram sem luz por várias horas.
A interrupção atingiu principalmente a zona norte da Área Metropolitana de Buenos Aires, alcançando bairros da capital como Palermo, Belgrano, Recoleta, Colegiales, Núñez, Saavedra e Villa Urquiza. Também houve registros de falta de energia em San Fernando, Vicente López, San Isidro e San Martín, além de localidades próximas à Rodovia Panamericana.
O apagão provocou transtornos no trânsito, com semáforos desligados em importantes avenidas. Na região da Avenida Figueroa Alcorta, edifícios inteiros ficaram às escuras, enquanto estabelecimentos equipados com geradores conseguiram manter parte de suas atividades. Motoristas e pedestres tiveram dificuldades para atravessar cruzamentos sem sinalização.
A distribuidora Edesur atribuiu o episódio a uma falha geral no sistema, considerada externa às suas operações. Até o momento, entretanto, não foi apresentada uma explicação técnica completa sobre a origem do problema nem esclarecido se os cortes registrados nas redes da Edenor e da Edesur tiveram a mesma causa.
O episódio reacendeu a insatisfação dos argentinos com o setor elétrico, principalmente porque ocorreu após uma sequência de aumentos expressivos nas contas de energia durante o governo de Javier Milei. Desde dezembro de 2023, o governo argentino promove uma redução progressiva dos subsídios públicos, transferindo uma parcela maior do custo da eletricidade aos consumidores.
Os reajustes variam conforme a região, a distribuidora, a renda e a categoria de consumo. Na área atendida pela EDEA, na província de Buenos Aires, as tarifas acumularam aumentos entre 480% e 620% desde o início do governo Milei. Na região metropolitana da capital, levantamentos anteriores apontaram elevação próxima de 525% até o final de 2025.
Os números não significam que todos os argentinos tenham recebido um reajuste único de 600%. O percentual depende do período analisado e do perfil de cada consumidor. Ainda assim, os dados revelam que algumas famílias passaram a pagar seis ou até sete vezes mais pela eletricidade em menos de três anos.
Em outra comparação, considerando o período entre janeiro de 2024 e outubro de 2025, a tarifa de energia elétrica acumulou aumento de 344%, enquanto o gás chegou a 617%. Já o conjunto de despesas familiares com eletricidade, gás, água e transporte registrou crescimento próximo de 600% em parte do período do governo Milei.
A política oficial sustenta que a retirada dos subsídios é necessária para reduzir os gastos públicos, equilibrar as contas do país e aproximar as tarifas do custo real dos serviços. Para os consumidores, entretanto, o apagão expõe uma contradição: as contas ficaram muito mais caras, mas o aumento das tarifas ainda não se traduziu em segurança contra falhas de grande escala.
Com centenas de milhares de pessoas temporariamente no escuro, o episódio deve ampliar a cobrança por explicações das distribuidoras e dos órgãos reguladores. Além da causa do apagão, permanece a questão sobre quanto dos reajustes cobrados dos consumidores está efetivamente sendo convertido em manutenção, modernização e confiabilidade da rede elétrica.