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Europa tira ouro dos EUA em meio a temor geopolítico

19/09/2026 - 08:05

Holanda e França reduziram a presença de suas reservas em cofres americanos, enquanto Alemanha e Itália enfrentam pressão para rever onde armazenam parte de seu ouro


Europa tira ouro dos EUA em meio a temor geopolítico

A crescente instabilidade geopolítica está levando países europeus a reconsiderar onde mantêm suas reservas de ouro. Holanda e França já transferiram parte de seus estoques antes mantidos nos Estados Unidos, em um movimento que reflete uma preocupação maior com segurança, acesso rápido aos ativos e autonomia financeira em períodos de crise.


O Banco Central da Holanda transferiu recentemente cerca de 86 toneladas de ouro mantidas na América do Norte. Grande parte da operação levou as reservas para Londres, onde ficam os cofres do Banco da Inglaterra, um dos principais centros mundiais de negociação do metal.


Antes da mudança, pouco mais de 31% das reservas holandesas estavam armazenadas em Nova York. Após a operação, essa participação caiu para aproximadamente 18,5%. O volume total de ouro do país permaneceu praticamente inalterado, em cerca de 612 toneladas.


A justificativa apresentada pelas autoridades holandesas foi a necessidade de melhorar a preparação para eventuais crises. Manter as reservas distribuídas entre diferentes países reduz riscos e, segundo o banco central, facilita o acesso ao ouro caso seja necessário utilizá-lo rapidamente.


A França também reduziu sua exposição aos Estados Unidos. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, cerca de 129 toneladas de ouro anteriormente mantidas em Nova York passaram por um processo de modernização. As barras antigas foram negociadas e substituídas por ouro adequado aos padrões internacionais, que passou a ser armazenado em Paris.


O volume representava aproximadamente 5% das reservas francesas. O Banco da França afirmou que a decisão teve razões operacionais e financeiras e negou que a transferência tenha sido motivada diretamente por questões políticas.


Apesar disso, o movimento ocorre em meio a uma discussão mais ampla na Europa sobre a conveniência de manter ativos estratégicos nos Estados Unidos. As tensões internacionais, o uso de sanções financeiras contra países e disputas políticas entre Washington e governos europeus aumentaram o debate sobre soberania e controle das reservas nacionais.


Alemanha e Itália estão entre os países onde políticos passaram a defender uma revisão da política de armazenamento de ouro no exterior. Os dois países possuem, respectivamente, a segunda e a terceira maiores reservas oficiais do metal no mundo.


A Alemanha ainda mantém uma parcela expressiva de suas reservas nos Estados Unidos. Nos últimos anos, o país já transferiu grandes volumes para Frankfurt, mas continua utilizando Nova York como um dos locais de armazenamento.


A discussão ganhou força depois que sanções internacionais passaram a demonstrar como reservas financeiras mantidas no exterior podem ser congeladas ou tornar-se mais difíceis de acessar durante conflitos políticos.


Especialistas ressaltam, porém, que a possibilidade de os Estados Unidos confiscarem reservas pertencentes a países europeus é considerada extremamente remota. O principal objetivo das mudanças estaria menos relacionado a um risco imediato de perda do ouro e mais à necessidade de garantir acesso rápido ao patrimônio em situações excepcionais.


Londres surge como uma alternativa importante justamente por concentrar um dos mercados físicos de ouro mais líquidos do planeta. Barras armazenadas na capital britânica podem ser negociadas com facilidade, característica considerada estratégica pelos bancos centrais.


O movimento também ocorre em um momento de valorização histórica do ouro. Em períodos de guerras, tensões diplomáticas, inflação ou instabilidade nos mercados financeiros, o metal costuma ganhar importância como reserva de valor.


Mais do que uma simples mudança de endereço dos cofres, a movimentação das reservas europeias revela uma transformação na estratégia dos bancos centrais. Em um cenário internacional mais fragmentado, ter o ouro fisicamente próximo — e sob maior controle nacional — voltou a ser considerado parte importante da segurança econômica dos países.