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Obra militar dos EUA em ilha remota do Pacífico desperta temor de nova guerra mundial

18/09/2026 - 09:59

Washington investirá cerca de US$ 500 milhões na reconstrução de porto estratégico em Palau; moradores temem que arquipélago se torne alvo em eventual confronto com a China


Obra militar dos EUA em ilha remota do Pacífico desperta temor de nova guerra mundial

Os Estados Unidos se preparam para reconstruir e ampliar o principal porto de Palau, um pequeno arquipélago do Pacífico situado em uma região considerada estratégica para uma eventual disputa militar com a China. O projeto reacendeu lembranças da Segunda Guerra Mundial e provocou temor entre os moradores de que o país se transforme em alvo de um novo conflito global.


A previsão é que Palau se torne, em 2027, o principal destino internacional dos investimentos em construção das Forças Armadas norte-americanas. Avaliado em aproximadamente US$ 500 milhões, o projeto prevê a modernização de um cais construído pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial e o aprofundamento do porto para receber embarcações de maior porte, incluindo navios da Marinha dos Estados Unidos.


Localizado a cerca de 800 quilômetros do Mar da China Meridional, Palau possui apenas 17 mil habitantes e menos de 460 quilômetros quadrados de área habitável. A posição geográfica do arquipélago é vista como fundamental dentro da estratégia militar norte-americana para o Pacífico.


Além da reconstrução do porto, os Estados Unidos planejam instalar no país um estoque de emergência destinado aos fuzileiros navais. Terrenos também estão sendo preparados para receber um radar militar, enquanto um aeródromo remoto passa por ampliação para acomodar aeronaves pesadas.


A intensificação da presença militar levou cerca de 2 mil pessoas a assinarem uma petição encaminhada ao Congresso de Palau. O documento cobra garantias de Washington para a proteção da população caso uma guerra alcance o território do arquipélago.


A desconfiança aumentou durante uma reunião comunitária realizada em agosto. Na ocasião, representantes dos Estados Unidos apresentaram os possíveis benefícios econômicos da reconstrução do porto usando imagens de navios de cruzeiro, sem mostrar embarcações militares.


Quando um morador perguntou onde seria instalado o terminal de passageiros, porém, a resposta foi que a Marinha norte-americana não precisava desse tipo de estrutura. O episódio reforçou entre os habitantes a percepção de que o projeto, embora divulgado também como uma melhoria para o transporte comercial e o turismo, tem finalidade essencialmente militar.


“Com a chegada das Forças Armadas americanas, agora somos um alvo”, afirmou Ongerung Kambes Kesolei, fundador de um centro de estudos local. Ele destacou que Palau passou a ocupar uma posição ainda mais relevante na chamada segunda cadeia de ilhas do Pacífico, considerada decisiva por estrategistas dos Estados Unidos e da China.


O temor também está ligado às memórias das batalhas travadas entre forças norte-americanas e japonesas durante a Segunda Guerra Mundial. Famílias de Palau ainda preservam relatos de moradores que precisaram fugir, esconder-se em florestas ou buscar abrigo em pequenas ilhas durante os confrontos.


Palau mantém um acordo de livre associação com os Estados Unidos. Pelo tratado, o país recebe recursos financeiros e seus cidadãos podem trabalhar e estudar em território norte-americano sem a necessidade de visto. Em contrapartida, o arquipélago concede acesso territorial às Forças Armadas dos EUA.


O governo de Palau defende a modernização. O presidente Surangel Whipps afirmou que o porto atual está próximo do colapso e considera a obra necessária para ampliar o transporte comercial e fortalecer a segurança da região.


As autoridades militares norte-americanas sustentam que o projeto permitirá a entrada de navios comerciais maiores e, simultaneamente, aumentará as opções logísticas para operações de defesa no Pacífico.


O empreendimento também enfrenta resistência ambiental. A dragagem prevista para o porto de Malakal poderá provocar a perda de 4,26 hectares de recifes de coral e afetar tartarugas, peixes e dugongos, mamíferos marinhos vulneráveis semelhantes aos peixes-boi.


A área ameaçada pelas obras possui reconhecimento internacional. As Ilhas Rochosas e a Lagoa Sul de Palau são classificadas como Patrimônio Mundial pela Unesco, agência especializada das Nações Unidas para educação, ciência e cultura.


A Unesco descreve os lagos marinhos de Koror como “laboratórios naturais” para a ciência, onde são encontradas novas espécies em uma região marcada pela grande diversidade de corais. As lagoas turquesas protegidas ficam a apenas dois quilômetros do local previsto para as intervenções.


Uma avaliação de impacto ambiental aponta que a dragagem do porto de Malakal poderá provocar a perda de 4,26 hectares de corais, além de afetar tartarugas, peixes e dugongos ameaçados de extinção. O risco de danos a uma área reconhecida pelas Nações Unidas ampliou a preocupação de cientistas, líderes tradicionais e operadores do turismo.


Moradores e autoridades locais passaram a cobrar monitoramento ambiental independente, medidas mais rigorosas de proteção e um fundo maior para reparar possíveis prejuízos causados ao ecossistema.


Embora parte da população reconheça a necessidade de recuperar o porto, moradores exigem mais transparência sobre a finalidade militar das instalações e os riscos associados ao avanço da rivalidade entre Washington e Pequim no Pacífico.