União Europeia amplia pressão sobre a China e quer Canadá como membro associado
Em discurso ao Parlamento Europeu, Ursula von der Leyen defendeu o reequilíbrio comercial com Pequim e abriu caminho para uma inédita relação de membro associado com Ottawa
A União Europeia anunciou nesta quarta-feira, 16 de setembro, uma estratégia de maior autonomia econômica e geopolítica, combinando medidas para reduzir o desequilíbrio comercial com a China e uma aproximação sem precedentes com o Canadá.
As propostas foram apresentadas pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, durante seu discurso anual sobre o Estado da União, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
Na relação com a China, von der Leyen afirmou que o bloco utilizará todos os instrumentos disponíveis para reduzir o déficit comercial. O desequilíbrio entre as duas economias chegou a cerca de € 1 bilhão por dia no ano passado, enquanto as negociações entre Bruxelas e Pequim continuam.
A presidente da Comissão Europeia também chamou atenção para a dependência europeia de matérias-primas estratégicas provenientes da China, especialmente as chamadas terras raras. Como resposta, defendeu a criação de mecanismos para garantir estoques e ampliar a segurança do abastecimento de materiais considerados essenciais para a indústria europeia.
Ao mesmo tempo, Bruxelas sinalizou uma aproximação mais profunda com o Canadá. Com o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, presente no Parlamento Europeu, von der Leyen propôs trabalhar para que o país se torne o primeiro membro associado da União Europeia.
A proposta não significa a entrada do Canadá no bloco europeu. O conceito de membro associado ainda precisaria ser regulamentado e negociado entre os 27 países que integram a União Europeia.
A ideia é estabelecer uma parceria ampliada em áreas como defesa, energia, minerais críticos, tecnologia, inteligência artificial, segurança cibernética e indústria. A cooperação também poderá envolver o Ártico, região considerada estratégica para Canadá e Europa.
Canadá e União Europeia já mantêm uma importante relação comercial por meio do acordo CETA. Desde sua implementação, o comércio de bens entre os dois lados cresceu de forma significativa, e a intenção agora é ampliar essa relação para setores estratégicos.
A aproximação também ocorre em um momento de mudanças na política comercial canadense. O governo de Mark Carney busca diversificar os mercados do país e fortalecer relações econômicas além dos Estados Unidos.
As duas iniciativas apresentadas por Bruxelas fazem parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da autonomia europeia. A intenção é reduzir vulnerabilidades nas cadeias de abastecimento, proteger setores industriais considerados estratégicos e ampliar alianças internacionais.
A proposta envolvendo o Canadá, porém, ainda depende de negociações e da aprovação dos países integrantes da União Europeia. Também será necessário definir quais direitos, obrigações e níveis de participação seriam atribuídos a um eventual membro associado.
O movimento ocorre em um cenário internacional marcado por disputas comerciais, competição tecnológica e crescente preocupação com energia, defesa e acesso a matérias-primas estratégicas.
Ao aproximar-se do Canadá e, simultaneamente, endurecer a postura comercial diante da China, a União Europeia sinaliza uma política externa cada vez mais concentrada na busca por autonomia econômica e diversificação de suas parcerias internacionais.