EDITORIAL
No dia da democracia, o Supremo fez uma opereta de chicanas
Ontem, 15 de setembro, foi o Dia Internacional da Democracia. Ninguém no plenário do Supremo Tribunal Federal pareceu não lembrar-se disso, ou, se lembrou, achou mais prudente não mencionar. Porque seria constrangedor demais celebrar a data justamente na sessão em que a Corte mais pareceu um clube fechado defendendo os seus.
A pauta era grave: mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, mentor do escândalo que envolve contratos milionários com o escritório da própria esposa do ministro. Matéria para investigação séria, sóbria, republicana.
Mas o que se viu, em vez disso, foi uma novela de bate-boca, questão de ordem em cima de questão de ordem, e um empenho quase coreografado de Gilmar Mendes para adiar, diluir e embaralhar o julgamento, com o apoio, momentos depois anulado por um pedido de vista, de Flávio Dino.
A intenção era clara: proteger Moraes. O efeito foi o oposto. Ao tentar blindar o colega com tanto afinco, Gilmar e Dino conseguiram a proeza de jogar contra o próprio STF, contra si mesmos e, de brinde, contra o candidato Lula, que eles tentavam a todo custo manter à distância segura do escândalo.
Não adiantou. Quando dois ministros da Suprema Corte se desdobram em malabarismos regimentais para evitar que um colega preste contas, a sociedade não vê zelo institucional: vê cumplicidade. E, por associação, a sombra alcança quem indicou alguns ministros.
E então veio a frase que resume a tarde da terça-feira: Gilmar Mendes, o decano do pedaço, lembrou que "até a máfia tem código de ética", numa ironia para a intenção de André Mendonça em investigar Xandão e como argumento que reforçou involuntariamente a adoção de um código de conduta para os próprios ministros do STF.
É difícil escrever ironia melhor do que a realidade oferece de graça. Numa data dedicada a celebrar a Democracia, o guardião da Constituição comparou implicitamente a instituição a uma organização criminosa, só que sem as regras.
Porque é isso que ficou dito, ainda que não pretendido: nem a máfia dispensa ética; o STF, ao que parece, ainda está pensando no assunto. Não é preciso ser jurista para notar o problema. Basta ouvir. Ministros que deveriam julgar com distância julgaram com intimidade. Ministros que deveriam preservar a Corte a expuseram.
E, num dia em que se deveria falar em Democracia, discutiu-se tudo, menos ética, tudo, menos transparência, tudo, menos o óbvio. E o plenário engoliu a realidade de que suspeita não se resolve com blindagem, resolve-se com investigação.
No resumo da opereta, a máfia tem código. E o STF, ontem, preferiu não ter data.
(Alex Medeiros)