O holofote seletivo no Brasil
Câmera na lapela dos policiais também deveria ser nos togados
No Brasil contemporâneo, a luz da transparência virou um luxo seletivo. Enquanto a esquerda grita por câmeras nos coletes dos policiais militares, aqueles que, no meio da noite, enfrentam facções armadas até os dentes, pouca gente se lembra de perguntar por que os verdadeiros poderosos continuam operando na penumbra refrigerada dos gabinetes. Imagine a cena: um soldado, suado, com o fuzil na mão e o coração na boca, correndo atrás de um traficante que transformou o morro em território soberano. A mídia, sempre vigilante, exige a câmera na lapela. “Precisamos ver tudo!”, bradam os engajados news.
Como se a eliminação de um bandido em confronto fosse o grande escândalo nacional, e não a epidemia de crimes que há décadas sangra o país. Pouco importa, para muitos, se o criminoso cai. O que importa é o ângulo da filmagem, o enquadramento, o “contexto”. Já a facção que controla presídios, lava dinheiro e dita regras de conduta em bairros inteiros? Essa, segundo alguns iluminados, ainda merece o tratamento de “organização criminosa comum”. Trump já disse o óbvio: trata-se de terrorismo. E o Brasil, educadamente, faz de conta que não ouviu.
Mas olhe para o outro lado da rua. Ali, no andar mais alto do poder, caminham os ministros do Supremo. Togados, serenos, imunes. Não carregam câmeras. Não precisam. A deusa Themis, aquela senhora vendada que deveria equilibrar a balança, foi discretamente empurrada para o canto do gabinete.
No lugar dela, sentou-se o conforto. E, em alguns casos, o cheque. O escândalo do Banco Master paira no ar como cheiro de mofo caro. Daniel Vorcaro, o banqueiro que transformou o sistema financeiro em playground particular, aparentemente não se contentou em driblar reguladores.
Ele foi além: comprou dois ministros. Não no sentido grosseiro da nota engordurada na mão, isso é coisa de mortal. Comprou no sentido sofisticado. Os fez empregados de luxo, de plantão no tribunal, prontos a interpretar a Constituição da forma mais conveniente para quem suga a nação.
Enquanto o policial precisa justificar cada disparo diante da câmera, o ministro pode, na sombra do despacho, reescrever as regras do jogo e depois ir jantar tranquilamente. Ou ir numa farra com suíças. Que ironia deliciosa.
Exigimos que o homem que arrisca a vida na linha de frente filme tudo, mas permitimos que aqueles que decidem o destino das leis operem sem testemunhas. O policial, se erra, vira manchete. O ministro, se se vende, vira “interpretação constitucional”. Um carrega o fardo da transparência; o outro, o privilégio da opacidade.
Talvez a solução seja simples e brutalmente democrática. Se vamos colocar câmeras em alguém, que seja primeiro naqueles que têm o poder de trair Themis em nome do chefão financeiro. Que o togado também ande com a lapela acesa. Que cada liminar, cada jantar “técnico”, seja registrado.
Afinal, se a sociedade tolera que o policial aja longe dos holofotes para conter a barbárie, o mínimo que pode exigir é que os guardiões da Justiça não operem como consultores particulares de quem compra o Estado a prestações. Enquanto isso não acontece, continuamos nessa farsa elegante. O soldado filmado, o ministro na sombra. O bandido do asfalto perseguido; o bandido de gravata, protegido.
E Themis, vendada de verdade agora, fingindo que não vê.
(Alex Medeiros)