A filosofia no pacote de presente
12/09/2026 - 01:39
Um livro que ampliou os caminhos da conexão entre pai e filha.
Quando minha filha completou 11 anos, não comprei uma bicicleta nova, nem a tão sonhada coleção de bonecas coreanas que desfilavam nas vitrines do shopping. Também não embalei um celular de última geração — embora soubesse que, entre os colegas da escola, esse era o passaporte para o prestígio. Não. Eu escolhi um livro. E não qualquer livro: escolhi O Mundo de Sofia.
Confesso que hesitei. Entregar a uma menina de 11 anos um romance filosófico de mais de 500 páginas poderia parecer uma espécie de armadilha disfarçada de presente. Mas eu me lembrei da Sofia, a protagonista, com os olhos cheios de perguntas, abrindo cartas misteriosas no jardim de casa.
Lembrei da minha própria leitura, tantos anos atrás, quando aquele livro me deu a sensação de estar espiando por detrás da cortina do mundo, vendo os fios invisíveis da história do pensamento humano.
No dia do aniversário, ela desembrulhou o pacote com a empolgação de quem espera algo brilhante. E lá estava ele: capa simples, título intrigante. “O Mundo de Sofia?” perguntou, franzindo o nariz. Eu sorri. “É um romance com enigmas. Uma viagem pelo tempo. E uma menina que, como você, quer entender o sentido das coisas.”
Nos dias seguintes, vi o livro passear da escrivaninha para a cama, depois para o sofá e até para o quintal. Às vezes ela sublinhava frases. Noutras, me aparecia com perguntas que me tiravam do chão: “Pai, por que existimos?”, “E se o universo for uma ideia de alguém?”, “Você acredita no acaso?”
Naquelas conversas, redescobri Platão, Descartes e Kant não como marcos distantes, mas como velhos conhecidos que voltavam à sala, convocados pela curiosidade da minha filha. E percebi que o maior presente não foi o livro em si, mas o que ele abriu: uma ponte entre o que fomos e o que podemos ser, entre o pai que lê e a filha que descobre.
Hoje, três décadas depois, ela já tem muitos livros na estante. Mas O Mundo de Sofia segue ali, com suas páginas gastas e suas perguntas intactas. E eu sigo acreditando que, de vez em quando, os melhores presentes vêm sem botão de ligar, e acendem, mesmo assim, uma luz que dura uma vida inteira.