Candidatos usam inteligência artificial sem identificação em conteúdos eleitorais
Monitoramento encontrou dezenas de publicações produzidas ou alteradas por IA sem informar ao eleitor que o material havia sido manipulado digitalmente
Um levantamento do Observatório Lupa identificou o uso de inteligência artificial em conteúdos relacionados às eleições de 2026 publicados nas redes sociais por candidatos. Em pelo menos 37 casos, materiais gerados ou modificados por IA apareceram em contas oficiais sem qualquer indicação de que haviam passado por manipulação digital.
O estudo analisou 314 conteúdos considerados suspeitos, coletados entre 16 e 26 de agosto em redes sociais e aplicativos de mensagens. Desse total, 282 apresentaram sinais de utilização de inteligência artificial, sendo a maior parte composta por deepfakes, tecnologia capaz de reproduzir ou alterar artificialmente a aparência, a voz ou a identidade de pessoas reais.
A ausência de identificação preocupa especialistas porque o eleitor pode receber um conteúdo artificial sem saber que imagens, vídeos ou áudios foram produzidos ou modificados digitalmente. A transparência sobre o uso dessas ferramentas tornou-se uma das principais preocupações da Justiça Eleitoral diante do avanço da inteligência artificial nas campanhas.
Lula e Flávio aparecem entre os principais alvos
O levantamento também identificou uma grande quantidade de conteúdos falsos produzidos com IA envolvendo candidatos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece como a principal vítima, com 115 ocorrências identificadas.
Flávio Bolsonaro aparece em seguida, com 56 conteúdos falsos detectados. Os números mostram que a tecnologia vem sendo utilizada não apenas para produzir peças favoráveis a determinados candidatos, mas também para criar materiais que simulam declarações, imagens ou situações envolvendo adversários.
A utilização de deepfakes amplia o risco de desinformação durante a campanha, principalmente porque vídeos e áudios manipulados podem apresentar aparência extremamente semelhante a conteúdos reais e alcançar milhares de pessoas em pouco tempo.
Regras eleitorais exigem transparência
A Justiça Eleitoral estabeleceu regras específicas para o uso de inteligência artificial nas eleições. A regulamentação busca garantir que o eleitor consiga identificar quando determinado conteúdo foi produzido ou alterado artificialmente.
O problema também ultrapassa as campanhas tradicionais. Um levantamento realizado pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio e pelo Ministério Público Federal mostrou que ferramentas de inteligência artificial generativa ainda apresentam dificuldades para cumprir integralmente as regras eleitorais brasileiras, incluindo restrições relacionadas ao tratamento e à apresentação de candidatos.
A expansão da inteligência artificial coloca as eleições de 2026 diante de um novo desafio: equilibrar o uso legítimo da tecnologia na comunicação política com a necessidade de impedir que conteúdos manipulados sejam apresentados como acontecimentos reais.
Com a campanha eleitoral avançando, a identificação clara de materiais produzidos por IA deverá ganhar ainda mais importância. Para especialistas e autoridades eleitorais, informar o eleitor sobre a origem e a natureza desses conteúdos é fundamental para reduzir o impacto da desinformação e preservar a liberdade de escolha nas urnas.