Chinês resgatado após 10 dias em túnel no Nepal: "Eu tinha perdido a esperança"
Lu Haitao passou dez dias isolado em um túnel de 225 metros após as enchentes no Nepal. Durante o período, tentou chamar a atenção dos socorristas e chegou a acreditar que os sons do resgate eram apenas fruto da imaginação.
O chinês Lu Haitao, de 49 anos, foi resgatado com vida após permanecer dez dias preso dentro de um túnel de uma usina hidrelétrica no Nepal. Ele foi encontrado no projeto Upper Trishuli-1, em uma região atingida por uma gigantesca enxurrada de gelo, lama e pedras.
O trabalhador foi localizado por uma equipe formada por militares nepaleses e especialistas sul-coreanos. Ele estava debilitado, coberto de lama e poeira e apresentava sinais de hipotermia, mas seus sinais vitais estavam estáveis. Depois de ser retirado do túnel, foi levado de helicóptero para um hospital.
Durante o período em que esteve preso, Haitao contou que tentou várias vezes chamar a atenção das equipes de resgate. Ele chegou a subir para a parte mais alta do túnel para aumentar suas chances de sobrevivência.
“Todas as vezes que eu via as luzes, gritava com toda a força”, contou o trabalhador.
Segundo Haitao, os socorristas chegaram a passar próximo ao local, mas não conseguiram ouvi-lo. Em determinado momento, ele começou a acreditar que os sinais de resgate que percebia poderiam não ser reais.
“Eu ouvi os apitos e pensei que talvez estivesse imaginando aquilo”, relatou.
O momento mais emocionante aconteceu quando as luzes dos socorristas finalmente apareceram diretamente diante dele.
“Quando as luzes brilharam diante dos meus olhos, eu não consegui acreditar”, disse.
Haitao explicou que, naquele instante, já não tinha forças ou esperança para continuar gritando.
“Eu já tinha parado de gritar. Havia perdido a esperança”, afirmou.
O trabalhador chegou ao Nepal em fevereiro para trabalhar, acompanhado por um conterrâneo. Antes de viajar, ele vivia na província chinesa de Henan, onde havia trabalhado como agricultor e também fazia serviços de carpintaria.
Família passou dias sem notícias
Enquanto Haitao permanecia desaparecido, seus familiares acompanharam as informações sobre a tragédia e enfrentaram dias de angústia. A irmã dele, Lu Hairong, contou que inicialmente recebeu a notícia do resgate, mas teve dificuldade para acreditar que o irmão realmente havia sobrevivido.
Ela só se convenceu quando viu uma fotografia de Haitao sendo retirado do túnel.
“Foi um golpe de sorte em meio à desgraça”, disse a irmã ao comentar o resgate.
Hairong contou ainda que não sabia exatamente onde o irmão estava trabalhando no Nepal. Durante os dias de busca, acompanhava as informações divulgadas por grupos formados por familiares de pessoas desaparecidas.
A preocupação foi tão grande que ela relatou dificuldades para comer e dormir enquanto esperava notícias.
Uma prima de Haitao, Lu Haiqing, também acompanhou diariamente as buscas. Depois que soube que ele estava desaparecido, passou a procurar notícias sobre o desastre e chegou a utilizar ferramentas de inteligência artificial para traduzir informações publicadas em nepalês.
Ela contou que chorava diariamente no caminho para o trabalho enquanto aguardava alguma notícia positiva.
Quando recebeu uma fotografia enviada pela família para ajudar na identificação do sobrevivente, inicialmente ficou em dúvida. A imagem parecia mostrar Haitao, mas ela precisou entrar em contato com outro familiar para confirmar.
Depois da confirmação, comemorou:
“Esse dia finalmente chegou. Há esperança quando a gente não desiste.”
Resgate renova esperança
Haitao foi o terceiro trabalhador encontrado com vida em túneis de projetos hidrelétricos atingidos pela tragédia. Dois trabalhadores nepaleses haviam sido retirados de outro túnel no dia anterior.
Além deles, uma mulher de 60 anos também foi localizada viva entre os escombros de uma casa parcialmente destruída. Ela foi retirada por equipes de emergência e levada de helicóptero para atendimento médico em Katmandu.
Os resgates aumentaram a esperança de encontrar outras pessoas ainda desaparecidas. As autoridades concentram as buscas em 12 projetos hidrelétricos atingidos pelas enchentes. Cerca de 900 trabalhadores estão desaparecidos nessas áreas, e aproximadamente 500 podem estar presos em túneis.
Tragédia deixou milhares de desaparecidos
As enchentes começaram em 26 de agosto e provavelmente foram provocadas pelo colapso de uma geleira. A força da água e dos deslizamentos destruiu casas, estradas, escolas e estruturas de usinas hidrelétricas.
Mais de 1.300 pessoas morreram no Nepal e milhares continuam desaparecidas. No lado tibetano da fronteira, também foram registradas mortes e centenas de desaparecimentos.
Equipes do Nepal, China, Índia, Coreia do Sul e Estados Unidos participam das operações de busca. Os trabalhos continuam entre grandes volumes de lama, pedras e estruturas destruídas, enquanto familiares ainda aguardam notícias de seus parentes.
O caso de Lu Haitao se tornou um dos símbolos de esperança em meio à tragédia. Depois de dez dias isolado e de acreditar que não seria encontrado, o trabalhador conseguiu sobreviver até que as luzes dos socorristas finalmente chegaram até ele.