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ONU aprova resolução para Novo mapa-múndi

05/09/2026 - 07:36

Modelo desenvolvido em 2018 representa melhor as proporções dos continentes; decisão foi aprovada por 164 países e teve apenas um voto contrário



ONU aprova resolução para Novo mapa-múndi

A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que incentiva a utilização de uma nova representação cartográfica do planeta, conhecida como Equal Earth. A proposta busca reduzir as distorções de tamanho presentes no tradicional mapa de Mercator, especialmente em relação à África, América Latina e outras regiões próximas ao Equador.


A votação ocorreu na sexta-feira (4), com 164 países favoráveis, seis abstenções e apenas um voto contrário: o dos Estados Unidos. A iniciativa foi apresentada pelo Togo e recebeu forte apoio de países africanos e da União Africana.


Apesar de a decisão ter sido amplamente divulgada como uma mudança no mapa oficial do mundo, a resolução não obriga países, empresas ou instituições a abandonar o modelo de Mercator. O objetivo é estimular o uso de projeções que representem com maior fidelidade as áreas dos continentes, principalmente em materiais educacionais e representações destinadas ao público em geral.


Por que o mapa de Mercator distorce o tamanho dos países?

A projeção de Mercator foi criada pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator em 1569. Seu principal objetivo era facilitar a navegação marítima.


O modelo possui uma característica extremamente útil para navegadores: as linhas de direção podem ser representadas de forma que os rumos constantes apareçam como linhas retas. O problema surge quando o mesmo sistema é utilizado para comparar o tamanho dos territórios.


Quanto mais uma região está distante da Linha do Equador, maior ela tende a aparecer na representação. Com isso, áreas próximas aos polos são visualmente ampliadas, enquanto regiões tropicais e equatoriais parecem menores. Um dos exemplos mais conhecidos é a Groenlândia. No mapa de Mercator, a ilha pode parecer ter tamanho semelhante ao da África.


Na realidade, o continente africano possui aproximadamente 14 vezes a área da Groenlândia. O mesmo princípio afeta países e regiões da América Latina, África e Sul da Ásia, que podem parecer menores do que realmente são quando comparados visualmente com territórios localizados em latitudes elevadas.


Como funciona o Equal Earth?

O Equal Earth foi desenvolvido em 2018 pelos cartógrafos Bojan Šavrič, Bernhard Jenny e Tom Patterson.


A projeção foi criada para preservar as proporções relativas das áreas terrestres. Isso significa que, embora nenhuma representação plana consiga reproduzir perfeitamente um planeta esférico, o tamanho relativo dos continentes fica muito mais próximo da realidade.


Na nova representação, a África ganha destaque visual e deixa de parecer desproporcionalmente pequena em relação às regiões do Norte Global.


A América do Sul também aparece com uma dimensão mais compatível com sua área real. O Brasil, por exemplo, passa a ocupar visualmente uma posição muito mais expressiva quando comparado a países localizados no hemisfério norte.


A Groenlândia, por outro lado, diminui consideravelmente em relação à aparência que possui no mapa de Mercator.


Nenhum mapa plano é perfeito

A discussão não significa que o Equal Earth elimine todas as distorções. O problema é matemático: transformar a superfície curva da Terra em uma folha de papel ou em uma tela necessariamente provoca algum tipo de deformação.


Existem diferentes projeções cartográficas, e cada uma prioriza determinadas características. A Mercator privilegia aspectos importantes para a navegação. Outras projeções procuram preservar áreas, formas, distâncias ou combinações desses elementos.


O Equal Earth foi desenvolvido justamente para priorizar a proporcionalidade das áreas continentais, tornando-o mais adequado para mapas destinados à comparação territorial.


A África no centro da discussão

A campanha que levou o tema à ONU foi impulsionada principalmente por países africanos. O Togo liderou a iniciativa, dando continuidade a uma mobilização apoiada pela União Africana para ampliar o uso de mapas que representem melhor a dimensão do continente.


Para os defensores da mudança, o problema não é apenas técnico. Eles argumentam que mapas utilizados durante décadas em escolas, livros, meios de comunicação e plataformas digitais também influenciam a maneira como as pessoas percebem o mundo.


A preocupação é que a representação exagerada de países do Norte Global e a redução visual de regiões tropicais possam contribuir para uma percepção equivocada sobre a importância e a dimensão de diferentes partes do planeta.


A resolução aprovada pela ONU menciona especificamente a preocupação de que essas distorções contribuam para minimizar a percepção sobre a dimensão da África, América Latina e Sul da Ásia.


O texto também relaciona o problema às percepções sobre desenvolvimento econômico, infraestrutura, questões ambientais, geopolítica e segurança.


União Africana já havia adotado o modelo

A aprovação na ONU ocorreu depois de a União Africana ter avançado na defesa do Equal Earth. A organização passou a tratar a mudança como parte de uma estratégia mais ampla para combater percepções consideradas distorcidas sobre o continente africano.


O movimento também ganhou força com a campanha internacional “Correct the Map”, que defende a substituição de representações consideradas inadequadas quando o objetivo é comparar o tamanho dos territórios.


O objetivo agora é levar a discussão para escolas, universidades, organizações internacionais, empresas de tecnologia e plataformas de mapas.


Togo quer mudar mapas das escolas

O governo do Togo pretende ser um dos primeiros países a alterar seus materiais escolares. Segundo o ministro das Relações Exteriores do país, Robert Dussey, a intenção é modificar os mapas utilizados nas escolas até o final deste ano.


O governo togolês também pretende conversar nos próximos meses com outros países da União Africana e governos de outras regiões para discutir formas de ampliar a utilização do Equal Earth.


As conversas deverão envolver ainda empresas que trabalham com mapas digitais, GPS e serviços baseados em localização.


França anuncia mudança

A iniciativa também recebeu apoio de países europeus. O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, afirmou que o país pretende abandonar a projeção de Mercator em favor de representações que mostrem com maior precisão as áreas dos países.


Barrot argumentou que as distorções cartográficas podem acabar influenciando a percepção que as sociedades desenvolvem sobre diferentes regiões do mundo.



Mercator continuará existindo

Apesar da decisão da ONU, o mapa de Mercator não desaparecerá. A resolução não possui caráter juridicamente obrigatório e não determina que governos, empresas ou escolas substituam imediatamente seus mapas.


Além disso, a própria iniciativa reconhece que Mercator continua sendo uma ferramenta adequada para determinadas finalidades, especialmente a navegação marítima e aérea.


A proposta é utilizar o Equal Earth ou outras projeções equivalentes quando o objetivo principal for apresentar o tamanho relativo dos continentes.


O que realmente muda?

Na prática, a decisão da ONU representa mais uma mudança de referência do que uma troca imediata de todos os mapas do planeta. O Equal Earth passa a receber um importante respaldo internacional para aplicações educacionais, institucionais e de comunicação.


Se a recomendação for adotada por escolas, organizações internacionais e empresas de tecnologia, milhões de pessoas poderão passar a visualizar o planeta de uma maneira diferente.


A principal mudança será visual: África, América Latina e outras regiões próximas ao Equador aparecerão com dimensões mais próximas de suas áreas reais, enquanto territórios próximos aos polos deixarão de ser apresentados de maneira tão ampliada.


A resolução, portanto, não muda o tamanho dos países. Ela muda a forma como eles são representados — e, consequentemente, pode mudar a maneira como o mundo é visualmente percebido.