Uma zebra há 60 anos
A estupefação mundial na Copa do Mundo de 1966
Os ingleses eram os donos da casa, mas nem eles tinham o mesmo otimismo dos italianos para jogar a Copa do Mundo de 1966. O técnico Edmondo Fabbri comandava uma geração de ouro, com Albertosi, Fachetti, Mazzola e Rivera. Nas oito cidades escolhidas para sediar os jogos, o ambiente só não era tão lúdico porque havia um sentimento de adeus no show que os Beatles fariam após a Copa, em agosto, na cidade americana de São Francisco.
Por mais que as belas canções do quarteto de Liverpool dominassem a cena musical e o estilo de vida dos jovens, era notório que o fim da banda havia chegado. De Londres a Sheffield, craques das quinze nações classificadas compraram discos dos Beatles. Mas em 19 de julho de 1966 algo marcaria a história das copas. O mundo estupefato com a magra, surpreendente e estupenda vitória do selecionado norte-coreano sobre o talentoso time italiano.
O resultado de 1 x 0 que ficaria conhecido como a maior zebra de todos os tempos em eventos da FIFA, transformou os últimos três minutos da partida, após o gol solitário de Pak Doo Ik, aos 42, numa epopeia de um povo inteiro. Pak Doo Ik, que os alfarrábios esportivos registrariam como dentista, era, na verdade, tipógrafo e militar. Nasceu num dia como hoje, em 1942, e agora aos 79 anos ainda é uma das figuras mais cultuadas no regime ditatorial coreano.
Das 16 seleções que disputaram a Copa, a Coreia era a última colocada nas bolsas de apostas das casas lotéricas britânicas. A Itália tinha a quinta posição de um ranking liderado pelo Brasil, que era seguido por Inglaterra e Argentina. O feito de Pak Doo Ik e seus companheiros transformou-se num fato quase maior que a Copa e numa surpresa tão ou mais estarrecedora que a separação dos “Fab Four”. Apesar do regime, o povo coreano festejou a glória improvável.
Mas depois, vítimas de pruridos ideológicos, parte da seleção foi perseguida pela ditadura comunista. Alguns foram enviados aos campos de concentração, outros expulsos para lugares ermos nas periferias das áreas rurais da Coreia. Muitos anos se passaram até que o historiador francês Pierre Rigoulot, autor do best-seller O Livro Negro do Comunismo, publicou The Last Gulag, revelando a versão coreana para as prisões soviéticas de Stálin, o monstro.
Uma das revelações de Rigoulot, mostrada num filme do britânico Daniel Gordon, é que Pak Doo Ik e seus amigos pagaram também por um crime logo após a batalha com os italianos: contrariaram a dura disciplina comunista. Nas horas de puro êxtase, não contiveram o desejo e experimentaram os valores burgueses do sexo e da cerveja na noite de Middlesbrough. E ainda pagaram por não conter o gênio Eusébio na virada de Portugal por 3 x 5.
Durante o degredo, Pak Doo Ik foi cultuado em silêncio, no vazio do medo, como o verdadeiro ídolo do povo. Os sete sobreviventes da perseguição política são retratados no documentário, que precisou passar por autorização. Pak Doo Ik viveu o bastante para sentir a paixão dos compatriotas, mas o mundo nem o notou aos 70 anos, em 2008, ao vivo na TV carregando a tocha olímpica nas ruas de Pyongyang antecedendo as Olimpíadas de Pequim.
Dois anos antes, faltou a um convite da FIFA na abertura da Copa da Coreia/Japão. Novamente estava sendo vítima dos preconceitos ideológicos do seu país, que o proibiu de aparecer como figura célebre na vizinha do Sul. Pak Doo Ik sobreviveu como lenda num regime que refuta glórias pessoais, mesmo quando construídas em nome do povo. Seu talento, que gerou o gol histórico, se tornou gíria na Itália. Lá, Coreia significa “derrota” ou “tragédia”.