O cara de Vorcaro e amigo do Careca
O potiguar Fabio Faria deixa de ser apenas personagem e ganha protagonismo no Caso Master
O caso Banco Master ganhou nesta terça-feira um daqueles capítulos que fazem a política brasileira parecer cada vez mais uma sala de visitas onde banqueiros, ministros, empresários, políticos e delinquentes entram e saem pela mesma porta. O relatório da Polícia Federal tornado público por decisão do ministro André Mendonça revela que Daniel Vorcaro, dono do banco que se transformou em um dos maiores escândalos financeiros dos últimos tempos, manteve uma relação de proximidade com o ministro Alexandre de Moraes. E, no meio dessa ponte entre o banqueiro e o magistrado, aparece novamente o nome de Fábio Faria.
As mensagens apreendidas no celular de Vorcaro mostram que o ex-ministro das Comunicações e hoje presidente do SBT News não foi apenas um conhecido ocasional do banqueiro. Segundo a PF, Faria articulou os primeiros encontros entre os dois, inclusive um jantar na casa de Moraes, em São Paulo, no fim de 2023. Depois, continuou funcionando como uma espécie de operador social dessa aproximação: transmitia contatos, combinava horários, organizava encontros e tratava Moraes pelo apelido de “Careca”. Em determinado momento, chegou a cobrar de Vorcaro pagamentos destinados ao escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, advertindo que “o careca não pode atrasar”.
O que torna tudo ainda mais desconfortável é que essa história não começou hoje. Ela já havia sido amplamente desenhada pela revista Piauí em uma longa reportagem publicada em agosto, assinada por Breno Pires e João Batista Jr. A publicação descreveu Fábio Faria como um dos principais elos de Vorcaro com o mundo político e empresarial de Brasília. Os dois se conheceram em Paris, em outubro de 2023, e a relação evoluiu rapidamente para negócios, viagens, encontros com autoridades e uma intimidade que ultrapassava, aparentemente, os limites de uma relação convencional entre empresário e consultor.
A reportagem da Piauí apresenta uma fotografia particularmente reveladora dessa intimidade. Fábio Faria aparece em viagens internacionais ligadas ao círculo de Vorcaro, inclusive em Londres, Lisboa e Nova York, e em situações da vida privada dos dois casais. Em uma mensagem, Faria chama Vorcaro de “irmão” ao desejar-lhe feliz Dia dos Pais. Em outra, os dois aparecem juntos numa viagem para o casamento de uma filha de Ciro Nogueira. Há ainda registros de encontros religiosos e de jantares familiares. Mais do que um simples contato profissional, formava-se ali uma relação de confiança — justamente o tipo de vínculo que, no universo do poder, pode valer mais do que uma agenda telefônica inteira.
Mas havia também negócios. A Piauí revelou que, poucos meses depois de conhecer Vorcaro, Faria vendeu ao banqueiro um projeto de energia eólica por R$ 67,5 milhões. Parte do pagamento teria envolvido um apartamento de aproximadamente 800 metros quadrados, avaliado em R$ 50 milhões, que Faria posteriormente revendeu por R$ 54 milhões. A revista também apontou documentos indicando que uma hospedagem de Faria em Nova York, de cerca de US$ 27,5 mil, teria sido paga com recursos de Vorcaro. Faria contestou informações e interpretações da reportagem e negou irregularidades.
O cartão de apresentação do Vorcaro
É nesse ponto que a expressão usada para definir Faria ganha um significado político mais profundo: o “cartão de apresentação” de Vorcaro nos ambientes do poder. Não se trata apenas de saber quem apresentou quem. A pergunta incômoda é o que essa apresentação produziu. Afinal, um banqueiro interessado em ampliar seus negócios e sua influência encontrou, em um ex-ministro com trânsito em Brasília, alguém capaz de abrir portas que normalmente permanecem fechadas para quem chega sem sobrenome político, sem mandato e sem acesso aos círculos mais exclusivos da República.
As novas mensagens da PF dão outra dimensão a essa história. Os encontros entre Vorcaro e Moraes não aparecem mais como episódios isolados ou como simples relações sociais. O relatório indica pelo menos seis encontros, alguns articulados por Faria. Há mensagens nas quais o banqueiro informa estar com “Alexandre”, inclusive em ocasiões privadas, e outras nas quais Faria sugere diretamente encontros entre os dois. O problema, portanto, não é apenas a fotografia de um político ao lado de um banqueiro. É a existência de uma engrenagem de relações na qual negócios privados, amizade, acesso a autoridades e interesses institucionais parecem se cruzar com uma naturalidade que deveria causar desconforto em qualquer democracia.
É importante não transformar suspeitas em condenações. As mensagens reveladas pela PF precisam ser investigadas, contextualizadas e submetidas ao contraditório. Fábio Faria nega irregularidades, e a existência de proximidade com Vorcaro, por si só, não constitui crime. Mas a política não vive apenas de crimes tipificados no Código Penal. Vive também de confiança pública, transparência e limites éticos. E é justamente aí que o personagem Fábio Faria se torna inevitável no escândalo Master. Porque, se Daniel Vorcaro precisava de portas abertas, Fábio Faria parecia conhecer muitas das chaves. E, se o banqueiro precisava chegar aos ambientes onde o dinheiro costuma conversar com o poder, o ex-ministro aparentemente sabia exatamente quem deveria ser apresentado a quem.
Agora, com o relatório da Polícia Federal sobre a mesa, aquela antiga apresentação ganha outro significado. O que parecia apenas uma rede de amizades começa a ser visto como uma rede de influência. E a pergunta que resta não é apenas quem Fábio Faria apresentou a Daniel Vorcaro, mas quantas portas foram abertas — e para quê?