Ecos do porão magnético
Saudade de 40 anos sem o Teatro Lira Paulistana, em Sampa
Quarenta anos se passaram desde que as luzes de um porão da Rua Teodoro Sampaio, no bairro Pinheiros, se apagaram. Mas o eco daquela garoa poética e debochada ainda vibra no asfalto da capital paulista e na massa cinzenta da minha cabeça.
Quando parti para São Paulo, em busca de futuro para mim e para a filha que iria nascer em 1985, eu já tinha uma noção de uma revolução musical em curso na cena urbana da terra de Mário de Andrade e Rita Lee. Ouvira falar de um teatro transgressor.
Fundado na efervescência de 1979, o Teatro Lira Paulistana foi muito mais que uma casa de espetáculos; foi o pulso underground, a versão brasileira do Cavern Club, onde a contracultura fincou pé com unhas, dentes e acordes dissonantes.
Ali, no aperto úmido daquele templo alternativo, a Vanguarda Paulista ganhou corpo e alma. Era um caldeirão de gênio e ousadia. O suingue performático e provocativo de Itamar Assumpção, a inteligência afiada do Grupo Rumo, a irreverência cênica do Premê e a intensidade lírica de Arrigo Barnabé com seu Clara Crocodilo.
O Lira era o refúgio dos inconformados, a usina de uma São Paulo que se recusava a ser apenas poeira industrial e buscava no deboche, no jazz e na poesia a sua verdadeira identidade urbana. A atmosfera do local respirava uma liberdade eletrizante.
Em meio ao suor da plateia colada ao palco, nasciam jornais independentes, discos caseiros e amizades eternas. Era a utopia realizada no coração de Pinheiros, um manifesto vivo contra o marasmo da indústria cultural de época.
Morando em Cotia, eu guardava o sábado ou um feriado para o sagrado rolê na Paulicéia, de preferência nas redondezas das ruas Teodoro Sampaio e Benedito Calixto. Fui testemunha da efervescência cultural gerada no subterrâneo do Lira enquanto a vida se contorcia na superfície.
Se chegasse cedo demais, fazia hora garimpando livros raros no Sebo de Elite ali por perto, que aprendi a frequentar levado por Homero Costa, morador mais antigo que eu na megalópole.
Ouvi os discos de Arrigo, Itamar Assunção, Premê, Língua de Trapo, Cida Moreira, Vânia Bastos, Ná Ozzetti, Rumo Tetê Espíndola e Eliete Negreiros, esta última já conhecida quando veio a Natal e ficou dois dias na casa dos meus pais em Candelária.
Inesquecíveis as noites na calçada do bar O Engenheiro que Virou Suco, na Avenida Paulista, ponto estratégico entre os eventos musicais e as resenhas no apartamento do saudoso Afonso Lima (Fon), o mano de Eustáquio e Lola.
Até hoje me vejo lá quando ouço “É sempre lindo andar na cidade de São Paulo / o clima engana, a vida é grana, em São Paulo”, um clássico do Premê que ainda toca na minha radiola de vinil com cheiro de saudade do Lira Paulistana.
Há 40 anos, em 1986, quando o Lira fechou suas portas e encerrou o capítulo histórico, eu estava de malas prontas, ajeitando os últimos pertences para voltar pra Natal.
Trouxe comigo na bagagem não apenas as lembranças do concreto paulistano, mas a certeza de ter testemunhado a era de ouro de uma revolução que nunca deixará de ressoar.
(Alex Medeiros)