A prima-dona do futebol esportivo
A jornalista espanhola que rompeu os muros do machismo no futebol
Mesmo agora, em pleno século 21, quando o termo empoderamento foi anexado ao linguajar coloquial de tantos idiomas pelo mundo afora, a imprensa esportiva ainda carrega alguns tabus contra a voz e a vez das mulheres. Agora imagine o ambiente do futebol nos anos 1970 e num país que talvez tenha a cultura machista mais acentuada. Foi numa conjuntura assim que a jornalista Mari Carmen Izquierdo resolveu se meter no jornalismo esportivo.
A espanhola então uma estudante de jornalismo, nascida em Burgos, a cidade que hoje tem o português como segunda língua, penetrou no universo de homens pelas páginas do diário AS, tornando-se pioneira na atividade. Depois se impôs na TVE, quando esta era a única televisão de Madrid e de toda a Espanha. No rádio, comandou programas com informações sobre os esportes e entrou com tudo comentando futebol dentro e fora dos estádios.
Não foi somente a primeira e única mulher entre homens, mas também ocupou cargos de chefia com um batalhão de machos respondendo diretamente a ela. O talento a fez presidente da Associação Espanhola de Imprensa Esportiva. Ocupou também cadeira no Comitê Olímpico Espanhol e foi patronesse da Fundação de LaLiga, a poderosa federação de futebol do país. Por muitos anos, ela integrou o júri do prestigiado e famoso Prêmio Princesa de Astúrias.
Quebrou barreiras em 1977 ao ser a primeira voz feminina no país na transmitir eventos esportivos internacionais. Cobriu os Jogos Olímpicos de Moscou em 1980 e dois anos depois comentaria os jogos da Copa do Mundo na Espanha. O caminho percorrido e vencido não foi fácil. Mari Carmen Izquierdo enfrentou piadas machistas nos estádios e nas ruas, a reação clássica que ela superou com talento e uma postura que a fazia a versão Thatcher da TV e do rádio.
Se a carreira profissional foi grandiosa, no campo afetivo e pessoal as coisas não lhes foram generosas. Mas mesmo os problemas de saúde ela encarou com fibra, sem transparecer fraquejo. O trabalho fazia as vezes de remédio. Entrevistou grandes nomes do esporte espanhol e de âmbito internacional. Era fã de um jovem piloto de Fórmula Um, nascido no Brasil e que se tornaria tricampeão do mundo. Sua página no Pinterest tem fotos de Ayrton Senna.
Fazia críticas severas aos rumos que a televisão tomou no seu país (como no Brasil), onde os dirigentes contratavam mulheres pelo critério anatômico e não profissional. Hoje há uma legião de mulheres a seguir seu legado na mídia. Escreveu também no Marca (rival de vendas do AS), no Pueblo e no Informaciones. Durante muitos domingos, comandou o programa Estúdio Estádio na TVE. Mari Carmen perdeu a luta contra um câncer de pâncreas em 2019, aos 69 anos.