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CRÔNICAS

Trinta anos depois, ainda há magia em Jovens Bruxas

24/08/2026 - 23:30


Trinta anos depois, ainda há magia em Jovens Bruxas

Assim como guardamos fotos antigas nas gavetas, também conservamos na mente filmes que envelhecem como imagens das nossas memórias. Gosto de filmes que envelhecem como as canções de juventude que mudaram de significado com o passar do tempo.

Jovens Bruxas, lançado em 1996, pertence à segunda espécie. Trinta anos depois, ainda é um filme sobre adolescentes, magia e rebeldia, mas também sobre aquilo que acontece quando quatro meninas descobrem que o mundo pode ser particularmente cruel com quem não se encaixa nele.


Quando assisti, acho que em 97, Marana tinha 12 anos e Rochelle 18, a trama estabeleceu uma sombra de referência na aventura das garotas protagonistas: Sara, Bonnie, Nancy e Rochelle (e aqui a coincidência do nome).  Sarah Bailey chega numa escola católica carregando seus próprios fantasmas.

Lá encontra as outras três igualmente marginalizadas. Bonnie traz no corpo as cicatrizes das queimaduras; Nancy, a pobreza, a violência doméstica e uma família desestruturada; e Rochelle enfrenta a sombra súbita do racismo.

Cada uma carrega uma forma diferente de ser considerada “estranha”, como Carrie, a menina do clássico de 20 anos antes. A palavra interseccionalidade ainda não circulava, mas o filme já mostrava que não existe uma única forma de exclusão.



Antes das quatro aprenderem a fazer bruxaria, as meninas já conheciam a pequena feitiçaria da sobrevivência. Ou seja, resistir, suportar, continuar. A bruxaria apenas transformava em poder aquilo que antes era sofrimento. 
Quando descobrem seus poderes, tudo parece mudar. Elas se tornam confiantes, agressivas, assertivas, donas do próprio destino. Características celebradas nos homens passam a ser assustadoras nas mulheres.

Mas o poder também revela suas contradições. A vingança de Rochelle contra o insulto racista que sofre é emblemática: pela primeira vez, ela pode devolver ao mundo a violência que recebeu. É o momento de fissura na “comadria”. Depois, porém, a amizade começa a reproduzir as mesmas hierarquias que elas queriam destruir no mundo patriarcal.

Bonnie e Rochelle tentam se tornar mais aceitáveis; Nancy mergulha no poder até ser consumida por ele. 
A loucura de Nancy é trágica justamente porque nasce de uma vida de humilhações. A atriz Fairuza Balk achou em Nancy seu papel mais emblemático, após ter sido Dorothy em O Mundo Fantástico de Oz, de 1985. Já Robin Tunney transformou Sarah numa personagem que buscava equilíbrio, e mais tarde conquistaria popularidade na série O Mentalista, ainda hoje reprisado em canais como AXN, Warner, TNT, além de ter sido exibido no SBT.

A sempre sensual Neve Campbell, que naquele mesmo 1996 encarnaria Sidney Prescott no assustador “Pânico”, foi outra adolescente obrigada a descobrir que sobreviver também era uma forma de poder em sociedade. E Rachel True interpretou Rochelle, que foi essencial para a dimensão racial da trama. Posteriormente ela tornou mais significativa a personagem, já que ouviu várias vezes sobre tratamento desigual em relação às demais protagonistas na divulgação do filme.

Talvez seja essa a maior ironia: trinta anos depois, o filme continua falando sobre a necessidade de reconhecer quem fica à margem. Seus efeitos envelheceram, algumas cenas denunciam os anos 1990, mas sua pergunta permaneceu intacta: o que fazemos quando finalmente temos poder?