Rejeição, economia e corrupção podem definir disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro
Pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto mostrou Lula com 47% das intenções de voto contra 43% de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno
A disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) pela Presidência da República em 2026 ainda aparece como uma eleição aberta. Para dirigentes de institutos de pesquisa, o resultado poderá depender menos da apresentação de propostas e mais da capacidade de cada candidato de reduzir a rejeição e explorar os pontos negativos do adversário.
As avaliações foram apresentadas durante o 25º Fórum Lide Empresarial, realizado no Rio de Janeiro. Segundo Murilo Hidalgo, diretor do Paraná Pesquisas, Flávio Bolsonaro vive um momento de crescimento e vem se aproximando de Lula nas pesquisas. O pesquisador considera possível que os próximos levantamentos voltem a apontar empate técnico entre os dois.
Andrei Roman, CEO da AtlasIntel, avalia que Lula ainda possui uma posição mais favorável na disputa, mas também considera a rejeição um dos principais fatores que poderão definir o resultado das eleições.
Pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto mostrou Lula com 47% das intenções de voto contra 43% de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno. Brancos e nulos somaram 9%, enquanto 2% dos entrevistados não souberam responder.
Apesar da aproximação entre os dois, Hidalgo afirma que ainda é cedo para apontar um favorito definitivo. Na avaliação dele, a tendência é de que a eleição presidencial chegue ao segundo turno e que a decisão seja tomada apenas nas últimas semanas da campanha.
Rejeição pode ser decisiva
Para os pesquisadores, um dos principais elementos da eleição será a rejeição aos candidatos. A avaliação é de que uma parcela importante do eleitorado brasileiro atualmente escolhe seu candidato também pelo desejo de impedir a vitória do adversário.
Andrei Roman afirma que essa característica ganhou força na política brasileira e pode novamente ter grande peso em 2026. Segundo ele, a eleição de 2022 foi influenciada não apenas pela preferência por Lula, mas também pela rejeição a Jair Bolsonaro, especialmente em razão da condução do governo durante a pandemia.
Para 2026, a mesma lógica pode se repetir. Na avaliação do executivo da AtlasIntel, acontecimentos capazes de aumentar a rejeição a um dos candidatos podem modificar rapidamente a disputa.
Corrupção deve estar entre os principais temas
As denúncias de corrupção também devem ocupar espaço importante na campanha. Segundo Roman, o tema tradicionalmente é utilizado pelo eleitorado bolsonarista para criticar Lula e seu grupo político.
Ao mesmo tempo, o pesquisador aponta que denúncias envolvendo Flávio Bolsonaro e seu entorno podem ser utilizadas pelos adversários para aumentar a rejeição ao senador. O escândalo relacionado ao Banco Master é citado como um dos assuntos que podem gerar pressão sobre o candidato.
Murilo Hidalgo critica o excesso de atenção dado pelas campanhas às denúncias e afirma que os candidatos ainda apresentam poucas propostas para solucionar problemas concretos da população.
Na avaliação do pesquisador, a campanha corre o risco de ficar concentrada em ataques e acusações, enquanto temas importantes para o cotidiano dos brasileiros recebem menos espaço.
Economia pode favorecer ou prejudicar Lula
A situação econômica também deve ter papel fundamental na decisão do eleitor. Hidalgo destaca que a percepção sobre o próprio bolso continua sendo um dos fatores mais importantes para definir o voto.
Preços dos alimentos, endividamento das famílias, emprego e condições econômicas próximas ao período da votação podem influenciar especialmente o desempenho de Lula, por ele representar a continuidade do governo atual.
Por outro lado, o presidente mantém uma vantagem em determinados temas sociais. Hidalgo cita medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e o programa Desenrola como ações que, segundo sua avaliação, contribuíram para a recuperação de Lula em regiões do Sudeste.
Segurança pública também pode influenciar
A criminalidade aparece como outro tema com potencial para alterar o cenário eleitoral. Andrei Roman chama atenção para o avanço de facções criminosas no Nordeste e avalia que o crescimento desses grupos pode aumentar a pressão por políticas de segurança mais rígidas.
Novos episódios relacionados à violência ou à atuação de organizações criminosas durante a campanha também poderiam modificar a percepção do eleitorado e aumentar a rejeição ao governo.
Nordeste e Sudeste terão peso importante
O desempenho dos candidatos nas diferentes regiões do país também será fundamental.
Segundo Roman, o governo Lula enfrenta uma possível perda de força no Nordeste quando comparado a eleições anteriores. Ao mesmo tempo, o presidente busca ampliar seu desempenho no Sudeste, principalmente em estados de grande peso eleitoral, como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Hidalgo também considera o Sudeste decisivo e aponta outro fator que pode interferir no segundo turno: a definição das eleições para governador em diversos estados ainda no primeiro turno. Caso isso aconteça, a mobilização política regional poderá diminuir na segunda etapa da eleição.
Terceira via ainda enfrenta dificuldades
Os candidatos que tentam se apresentar como uma alternativa à polarização entre Lula e Bolsonaro continuam encontrando dificuldades para conquistar espaço.
Na avaliação de Hidalgo, parte desses candidatos ainda concentra seus discursos nos ataques a Lula e Flávio Bolsonaro, em vez de apresentar propostas capazes de criar uma identidade própria e atrair eleitores que não se identificam com os dois principais grupos políticos.
Reta final pode mudar completamente o cenário
Apesar da vantagem de Lula apontada por algumas pesquisas, os pesquisadores ressaltam que o cenário pode mudar rapidamente até outubro.
Para Hidalgo, novos escândalos, denúncias ou acontecimentos negativos envolvendo qualquer um dos candidatos podem alterar a disputa. Por isso, ele considera que o resultado dependerá muito de qual candidato chegar à última semana da campanha com menor desgaste.
Roman também acredita que a eleição continua competitiva. Embora considere que Lula atualmente tenha uma probabilidade maior de vitória, a redução da diferença nas pesquisas mostra que Flávio Bolsonaro permanece com condições de disputar o segundo turno.
Além da disputa eleitoral, uma eventual vitória ou derrota dos dois principais candidatos poderá provocar mudanças nos grupos políticos que representam. Uma nova vitória de Lula poderia abrir espaço para uma renovação na liderança da esquerda, enquanto uma eventual derrota de Flávio Bolsonaro poderia estimular uma reorganização do campo político ligado ao bolsonarismo.
Com pouco mais de dois meses até o primeiro turno, a avaliação dos pesquisadores é que ainda há muitos fatores capazes de alterar a disputa. Economia, segurança, denúncias, rejeição e desempenho regional devem estar entre os principais elementos observados pelos eleitores até a reta final da campanha.