Cantando Art Pop
Um poema decassílabo como referência de um outro que fiz em 1981
Há 45 anos, em 1981, eu compus um poema em versos agalopados cultuando os poetas da minha geração e utilizando linguagem sarcástica contra os figurões da cultura clássica do fim do século XIX e início do século XX. O compositor Babal Galvão musicou o poema em 1982, iniciando uma parceria que perdura até hoje. Para lembrar e marcar aqueles versos, fiz outros destacando o movimento que alimentou minha trajetória e foi referência do caldo de cultura que sorvi.
Sou muito de verso, sou pedra e vidraça
produto da raça dos anos cinquenta
cresci com os Beatles sessenta e setenta
Roberto no inferno e Ronnie na praça
Sou um resultado da cultura de massa
Das latas de sopa de um superstar
Vi homem na Lua, mulher no sofá
Meninos virando figuras no bafo
Me vi na TV perdido no espaço
Cantando art pop na beira do mar
Eu vi um baiano com régua e compasso
Medir o tamanho de um velho guerreiro
Ouvi o barulho de um Brasil pandeiro
E li no Pasquim Ziraldo num traço
A nudez de Leila no mar embaraço
Vi o balé de Cassius Clay a lutar
Retrato de Chico da Claudia Andujar
Garotas na escola jogando peteca
Gritei com Pelé e Tostão no Azteca
Cantando art pop na beira do mar
Assisti as novelas da Globo e Tupi
E os seriados de Batman e Tarzan
Toalha nas costas quis ser Superman
Juntei Bob Dylan com a Rita Lee
Chiclete de bola, pastilha e poli
O rock do Elvis os filmes de Godard
Uma Coca-Cola pra ela tomar
Depois de um beijo dentro do cinema
Jobim e Vinícius na velha Ipanema
Cantando art pop na beira do mar
Em verso e papel eu faço meus cantos
Na minha aldeia Londres nordestina
Mafalda maldando lá da Argentina
A Turma da Mônica na Estrada de Santos
Erasmo olhando Bethânia aos prantos
E Jagger esperando o Jimi tocar
Bardot arrasando em outro lugar
Um hippie bordando camisas de areia
E a flor girassol virando sereia
Cantando art pop na beira do mar.
Alex Medeiros